Entre o Lamaçal e os Livros

Enquanto a política nacional se reduz ao jogo de acusações e à ignorância ruidosa, resta ao cidadão buscar na literatura as respostas para a eterna complexidade da natureza humana. Assim é a Coluna no Bico do Corvo de hoje.

Reflexo eleitoral

Se me perguntarem se o brasileiro evoluiu politicamente com a polarização, não saberia o que responder, porque o nível de ignorância se supera. Ele é, na verdade, medonho. A maioria se pauta por invencionices ou notícias falsas — o que, por si só, derruba qualquer tese de amadurecimento, lamentavelmente.

 

É difícil

Os noticiários andam insuportáveis. Na esperança de girar a roda ao contrário — vencendo a internet e transformando seguidores em telespectadores —, os telejornais estão mudando a linguagem, e essa adaptação afasta a audiência formal. Isso fica evidente até mesmo nos apresentadores, pois muitos não conseguem mudar o estilo. E como se faz para engolir tudo o que é jogado nas telas o tempo todo? Não sei quanto aos outros, mas eu faço ao meu modo: não assisto. Atualizo-me buscando informações em fontes credíveis. Não abro espaço para a especulação.

 

Olhos cansados

Para escapar da pressão cotidiana, busco refúgio na leitura e, quando a visão cansa — algo comum aos meus 68 anos —, reviro os catálogos de streaming, onde só me restam reprises. As novidades não me empolgam. Sou leitor de uma obra por vez. Nos últimos tempos, li de cabo a rabo Os Sete Pilares da Sabedoria, de T.E. Lawrence; depois, A Montanha Mágica, magistral obra de Thomas Mann; e engatei os últimos dias em A Lanterna na Popa, de Roberto Campos — um tijolo de 1.300 páginas. Minha busca pelos títulos foi aleatória, mas é impressionante como os enredos de alguma forma se interligam: não pela história, sociologia ou pelos conflitos de suas épocas, mas sim pela natureza humana.

 

Ideologias forçadas

Acompanhando a euforia eleitoral e a índole do brasileiro, surge essa incógnita baseada nos resultados das pesquisas, com a constante queda de braço entre esquerda e direita. Historicamente, radicalismos desgraçaram nações e culminaram em conflitos mundiais. Há muita similitude com o que ocorre hoje e, tomara, o Brasil não enverede por caminhos tortuosos. Governos malsucedidos nos arrastam para décadas de penúria, porque a incompetência dos sucessores é sempre debitada na conta dos antecessores. Uma praga! Aliás, em nosso país, vivemos à sombra dessa desculpa esfarrapada em cidades e estados. Passada a eleição, pontuarei melhor o resultado da leitura.

 

Desafio do “sigilo”

Onde já se viu uma coisa assim? A quebra de sigilo tornou-se o ponto alto da disputa eleitoral. Isso nos empurra para uma régua que passa longe da qualidade. Barbaridade. O Brasil fará a comparação de quem cometeu menos delitos ou de quem tem o rabo mais preso. Lula trucou e Flávio gritou: “seis!”. Vejamos: o ponto alto da disputa é o debate desta quinta-feira, na Rede Globo, onde dificilmente o resultado da quebra de sigilo poderá ser usado, além de não haver tempo para expor todo o arcabouço da vida pregressa dos candidatos. E será que isso nos ajuda em alguma coisa?

 

Enxurrada e lamaçal

Impressionante. A cada dez inserções de propaganda eleitoral, oito são acusações, desavenças e revelações dantescas. Nos noticiários não é diferente, com a avalanche de envolvimentos suspeitos e tramitações na Justiça — a performance desanimadora das duas únicas alternativas reais que teremos. Não deveria ser assim: uma eleição por exclusão, cujo único objetivo é a destruição do oponente.

 

Estagnação ou virada

O placar ainda sustenta Flávio Bolsonaro na ponta e, olhando todas as pesquisas, os índices vão de 0,89 a 1,95 ponto de diferença — ou seja, dentro do empate técnico. O comportamento histórico do eleitorado é sustentar o resultado do primeiro turno, mas eu francamente não apostaria nisso. Há muitas variáveis que podem surpreender quando os números são tão próximos.

 

Onde mora o perigo

Os dois candidatos estão preocupados. Há um vácuo que começa na ausência de manifestações de campanha nas ruas, com candidatos a deputados estaduais e federais, governadores e senadores; no primeiro turno, havia multidões, bandeiras, abordagens com santinhos e militância ativa. As esquinas de Foz estão desérticas. Outro fenômeno pode ser a variação na abstenção — a verdadeira caixinha de surpresas eleitoral. Escândalos a essa altura já não fazem cócegas, pois surgem a todo momento.

 

Amanhã é outro dia!

Foi o que disse Scarlett O’Hara! E é verdade: sempre surgem novas pesquisas e mais informações, mas nada disso mexe com a minha cabeça, porque a escolha já está feita. Quantos milhões de brasileiros estarão igualmente convictos? Eis a questão.

 

Rogério Bonato assina a coluna No Bico do Corvo.