E como é que se faz?
A primeira coluna de Rogério Bonato abordando o ambiente eleitoral foi — como se esperava — bem recebida pelos leitores, pelos setores produtivos e pela sociedade que se considera organizada. Alguns políticos concordam, mas há quem não tenha deglutido confortavelmente a opinião do jornalista (AF).
Rogério Romano Bonato
Vão acusar: “Que texto mais filosófico!” — e, convenhamos, filosofia pode parecer chato de ler. Mas começo a discussão informando que nunca fui motivado pelo ódio nem converti a soma das contrariedades em vingança; esse comportamento não faz parte da minha postura. Apenas contextualizo o pensamento do coletivo, sem distorção ideológica ou sensacionalista, apoiado na leitura de dados e na interpretação neutra do cenário social, cujo tecido é extremamente sensível. Já fui chamado de “polêmico”, adjetivo muito usado por incapazes de polemizar eficientemente contra quem mantém o distanciamento crítico sem — verdadeiramente — interferir ou julgar precocemente. Penso que, no fim das contas, consigo olhar para o coletivo e situá-lo no tempo e no espaço.
Sou fascinado pelo comportamento humano e por suas transformações em grupo. Como agente da informação, apoio-me na ética jornalística e na busca pela veracidade e justeza dos fatos. Com tanto tempo nessa tarefa, consigo desenhar um mapa do sentimento social. Mas não quero ser tratado como um “cartógrafo da opinião pública” — poupem-me. No entanto, quando escrevo que o setor político escarrou no solo iguaçuense, acreditem: é a pura verdade.
E onde é que entra o “ódio” nisso? Quando as diferenças deixam de ser apenas um afeto individual ou uma emoção passageira e se transformam em um fenômeno coletivo de desumanização e rejeição sistêmica, a linguagem de identidade e pertencimento funda-se na negação do outro. Esse sentimento se cristaliza quando um grupo passa a enxergar a existência, as ideias ou a cultura do outro não como uma divergência legítima, mas como uma ameaça que precisa ser neutralizada, silenciada ou destruída. Isso se transforma em terreno minado em temporada eleitoral — e é por ele que a sociedade terá de passar. É justo?
É desse descontrole e dessa falta de atenção que descamba e se manifesta o ódio social — altamente contagioso, alimentado pelo medo, pela frustração e pela perda de referenciais, propagando-se em rede por meio do ressentimento acumulado. Ele simplifica realidades complexas, substituindo o debate articulado por slogans, estigmas, vilanização e rejeição automática. Diferente da raiva — que pode ser uma reação pontual e legítima contra uma injustiça —, o ódio social é estrutural e permanente. Ele deforma a percepção da realidade: a pessoa ou o grupo afetado perde a capacidade de enxergar a complexidade do outro com justeza ou veracidade, reduzindo o contraditório a uma caricatura a ser combatida.
Aí alguém vai perguntar: a situação em Foz do Iguaçu, no Paraná e no Brasil é assim tão grave? É. Um reflexo disso é a aparente impotência de Foz do Iguaçu frente à afronta que lhe foi imposta com o lançamento de tantas candidaturas pulverizadas. Pois lhes escrevo com convicção: o resultado disso consegue ser ainda pior do que o “ódio”, com toda a força da sua expressão. É quando se manifesta a indiferença.
“Ah, isso é normal, acontece em todas as eleições e é por essa razão que a cidade não elege deputados”, foi o que alguém relatou ao se deparar com a publicação da minha última coluna, intitulada “A verdade não requer guarda-chuva”. Francamente, isso não deveria “ser normal”. A bagunça reflete a desorganização, a falta de empatia com o exercício da política, o afastamento quanto aos deveres e responsabilidades dos representantes e, por fim, o ponto em que se perdem os direitos da população. É sim odioso ver como conduzem um processo tão importante.
A pergunta do título — “E como é que se faz?” — pede uma resposta: sociedades equilibradas e com a ambição de resolver seus problemas e deformidades se impõem frente a essa displicência de quem pressupõe a representatividade. Participam mais do exercício político, melhoram a qualidade dos partidos, usam a inteligência nos períodos pré-eleitorais e cuidam para que a predação não prejudique os objetivos e anseios da cidade. Uma sociedade assim vota melhor, com mais qualidade e, depurando com atenção o valioso momento da escolha, chega mais rápido aos seus objetivos.
A culpa não pode ser diretamente atribuída ao eleitor nesta fase de formatação das candidaturas, mas será depositada nas urnas se o resultado for desastroso. Logo, é preciso pensar nisso e saber lidar com mais essa adversidade até o dia da escolha.
