Deu Lula, contra as apostas e as pesquisas

Luiz Inácio Lula da Silva fez o inédito e ensinou ao Brasil que não deve ser subestimado.

Fui e votei

O Porto Meira, localidade onde meu dedo vai às urnas, estava muito tranquilo e pacato. Não demorei nem dois minutos para exercer a cidadania. Ao sair, fiz uma pausa — acompanhado da Eliane — para um cafezinho no Supermercado da Família (um abraço ao Reginaldo, à Juliane e à Maria!), onde gravei um vídeo para o Instagram. Deixei a mensagem independentemente do resultado, pois o futuro continua dependendo de todos os brasileiros. Como diz a canção: ainda “Depende de Nós”.

 

Amanhã volta ao normal?

Havia um rumor sobre a possibilidade de anulação do segundo turno, sob a alegação de que uma decisão de um ministro do STF teria atropelado a Justiça Eleitoral — a quem caberia, segundo especialistas, a prerrogativa de manter a votação aberta até as 19h. A hipótese foi descartada. Pouco após, os números voltaram a acompanhar as pesquisas, dentro da margem de empate técnico. Acompanhando a apuração pelo jornal Folha de S.Paulo, deparei-me com um mapa em que o Brasil aparecia dividido ao meio: o Norte em vermelho e o Sul em marrom claro, com alternância de cores em alguns estados. A resposta ao título desta nota é sim: a vida volta ao normal, apesar da ressaca de quase metade da população. Os bolsonaristas estão inconsoláveis. Belisquei para saber se era verdade, no instante em que a Folha projetou a vitória de Lula para o seu quarto mandato.

Pataquada

Não há eleição sem controvérsias neste país cuja imagem mais marcante segue sendo o Cristo de braços abertos sobre a Guanabara. Ele nos protege, afinal. Mas em um pleito tão acirrado, não faltariam manobras. A obstrução do transporte público foi um golpe duro, pois a população de menor renda depende da condução e, por lei, não pode sequer pegar carona. Quem foi votar de carro não enfrentou o mesmo dilema. Ônibus apreendidos ostentavam a estrela do PT, mas cabe a pergunta: haveria o interesse de tirar de circulação justamente os veículos que levavam os eleitores do próprio partido? As investigações estão em andamento e representam o grande ponto cego deste pleito. A PF está em cima.

 

Reflexo eleitoral

Foi no mínimo surreal a estagnação prolongada dos dados para a Presidência da República. Os mais afoitos queimaram os rojões antes da hora; após as 19h, a expectativa deu lugar à agonia. Os primeiros números, que apontavam Lula com 57,66% contra 42,34% de Flávio Bolsonaro, representavam apenas 0,25% da apuração total. A prorrogação do horário não foi bem assimilada por parte do público, mas, assim que a apuração foi liberada, o placar começou a se alterar rapidamente. Às 19h50, Flávio tomou a dianteira até que Lula o ultrapassou novamente na reta final. Minas Gerais aparentemente causou o estrago.

 

Erros e acertos?

A história nos ensinou que Luiz Inácio Lula da Silva vencia de forma mais confortável quando o ocupante da cadeira presidencial era outro (à exceção de sua primeira reeleição). A mensagem de “a esperança vence o medo” era extremamente eficiente, aliada à figura do candidato de “paz e amor”. Desta vez, em 2026, o oponente parecia mais sereno. Ao final do debate da Rede Globo, Flávio Bolsonaro adotou o discurso de eleições limpas e tranquilidade, sendo repreendido por Lula, que o chamou de “miliciano”. Flávio inverteu o lema para “o medo derrotando a esperança”, bordão que ecoou no dia da votação. Os papéis se inverteram e muitos petistas criticaram a postura adotada pelo presidente no momento mais delicado do projeto de seu quarto governo. No fim, se a meta era vencer a qualquer custo, Lula acertou a mão.

 

Vitória dos institutos?

Raras vezes na história do Brasil tantos institutos de pesquisa estiveram em tamanha evidência, dada a proximidade dos números entre eles. Impressionante. O ponto vulnerável continuou sendo a projeção do resultado final, preferindo manter-se na margem de segurança.

 

Flávio “quase” presidente do Brasil

A esta altura, Lula celebra mais uma conquista. Os holofotes globais voltam a se acender sobre ele nesta segunda-feira. Para Flávio, a Presidência da República permanece, por ora, no campo das aspirações. Sendo jovem, seu futuro na política é inevitável. Curiosamente, após ver a eleição de familiares, ficou de fora do pleito principal. Terá mais tempo para visitar o pai. Espera-se que não alimente a divisão do país nem trate o contraditório como delito.

 

Lula pós-eleição

Embora seja cedo para avaliações definitivas, muitos enxergam este mandato como a transição para o encerramento de sua carreira política — que se espera ser sereno e à altura de sua trajetória. Ele consolidou seu nome na história e fará jus a um merecido descanso ao término destes quatro anos. Demonstrou desgaste ao longo de uma campanha aguerrida, mas realizou o que parecia improvável: virar uma eleição presidencial pela primeira vez na história recente.

 

O impacto da polarização

Seja pela forte rejeição ao PT e à sua permanência no poder, seja pela aversão à truculência da extrema-direita, o fato é que o país apresenta uma clara divisão ideológica. Esse fenômeno ainda será objeto de profundos estudos acadêmicos: como uma nação de proporções continentais abriga correntes tão antagônicas, quase como duas nações distintas. A pacificação é urgente e deve figurar como o principal compromisso dos próximos quatro anos de governo. Unir o Brasil será o maior desafio de Lula. Viva o Brasil!

Rogério Bonato assina a coluna No Bico do Corvo