As “Feiras do Livro”: verdades sem mistério e o peso das ideologias

De saraus iluminados por candeeiros aos grandes Salões Internacionais, a trajetória do livro em Foz do Iguaçu revela como uma construção coletiva pode ganhar importância cultural — e também como a falta de visão pode fazer um patrimônio perder o brilho.

Rogério Romano Bonato

A memória é como bala de revólver: uma pega, a outra falha. Por isso, precisei arrefecer os ânimos e revirar algumas lembranças antes de escrever sobre algo tão importante e que, em algum lugar, me entristece. Faço isso atendendo a vários amigos, porque há quem compartilhe o desconforto de esperar pelo melhor e acabar se conformando com o que há. Mas existe um alento: a relação de Foz do Iguaçu com o livro é algo extraordinário e merece ser contada. Faço isso humildemente, pelo meu olhar, sabendo que toda memória é também uma forma particular de interpretar o tempo. Não pretendo escrever a história definitiva das feiras literárias da cidade, mas registrar aquilo que vivi, testemunhei e conheci de perto.

 

Anos 50

Nos tempos em que Foz do Iguaçu — como diziam — nem sequer possuía uma emissora de rádio, a leitura era, proporcionalmente, muito mais valorizada do que atualmente. E há uma explicação bastante simples: os livros, encomendados pela população, quando finalmente chegavam, transformavam-se em acontecimentos. Promoviam-se os chamados “saraus de leitura”. Os encontros eram itinerantes. Primeiro, as pessoas rezavam; depois, liam até o sono chegar. Segundo a narrativa de Otília Schimmelpfeng, em 1981, as famílias organizavam essas reuniões em dois horários: no final da tarde, acompanhadas de chá, e, depois, sob a luz dos candeeiros.

Levavam as crianças, mantas e cobertores, e o livro era o grande entretenimento. Não havia televisão, internet, celular ou qualquer das distrações que hoje disputam cada minuto da nossa atenção. Havia o livro — e havia tempo para ele. Era também durante essas reuniões que ocorria a troca de exemplares. O gesto, simples e civilizado, acabaria se transformando mais tarde no chamado “Clube do Livro”.

 

Anos 60 e 70

A Rádio Cultura de Foz do Iguaçu possuía um auditório. Obras literárias eram ali resenhadas assim que lançadas. As críticas ao vivo estimulavam a leitura, e havia uma pequena biblioteca junto à discoteca. Os exemplares eram doados. Dona Eldrida Engel Nunes Rios foi uma grande incentivadora do livro e uma precursora do armazenamento e da catalogação bibliotecária, realizando diversos eventos de incentivo à leitura. Enquanto isso, a cidade começava a mudar de escala. Com a Ponte da Amizade, a BR-277 e o novo aeroporto, as bancas de revistas passaram também a funcionar como pequenas livrarias. Foz começava a descobrir que livros, assim como mercadorias e turistas, também podiam atravessar fronteiras.

 

Anos 80

Eis que Dobrandino Gustavo da Silva assume a prefeitura em 1986 e, entre suas providências, cria a Fundação Cultural de Foz do Iguaçu. Aqui cabe uma nota de reconhecimento: a família Campana foi um verdadeiro clã apaixonado pelos livros. Destaca-se o filho mais velho, Fábio, um dos grandes nomes do jornalismo e da literatura paranaense. Não muito longe dele, coube ao irmão mais novo, Sílvio, organizar o primeiro encontro oficial que pode ser considerado uma feira literária. À frente da Fundação, reuniu livreiros nas calçadas de um bar noturno conhecido como Taberna. Compareceram intelectuais, escritores e músicos. Eu testemunhei aquela lendária tarde/noite.

Vale lembrar que o local era ponto de encontro da intelectualidade, com gente do calibre de Geraldo Vandré, Zé Ramalho e Paulo Leminski. Não era exatamente um ambiente onde a cultura precisasse pedir licença para entrar. No dia do Encontro de Livreiros, desabou um temporal medonho. Mesmo assim, o evento aconteceu. Anos depois, a iniciativa se repetiu, mas já sem o mesmo entusiasmo. Talvez porque organizar cultura seja também uma arte: a ideia pode ser excelente, mas precisa encontrar persistência, recursos e, sobretudo, quem acredite nela.

 

Anos 2000

Aqui é um terreno pelo qual posso transitar com mais liberdade. Em 2005, assim que Paulo Mac Donald Ghisi colocou os pés na prefeitura — com seu conhecido escorpião no bolso —, Marcelino Vieira de Freitas e Adilson Pasini começaram a matutar uma série de eventos sob a regência da Fundação Cultural. Pensaram em uma feira do livro. Um, como diretor-presidente; o outro, na função de secretário-geral. A ideia era realizar o evento na Praça do Mitre, pela primeira vez estabelecendo uma interação direta entre os livros e a população.

É preciso fazer justiça e reconhecer: a Feira do Livro renasceu dessa maneira. Assim, a Fundação Cultural de Foz do Iguaçu e o CEAEC, entre 6 e 10 de julho daquele ano, receberam a população entre pilhas de livros espalhadas pela praça.

 

Preparação

Todos os projetos que o CEAEC se propõe a realizar são muito bem elaborados. Colocam, literalmente, a mão na massa. Em geral, estruturam equipes de voluntários extremamente competentes. Gente como Nara Oliveira, Laênio Loche e Dayane Rossa coordenou e realizou um projeto impecável, apresentado ao prefeito e aos diretores da Fundação. Tudo muito “em cima do laço”, como costuma acontecer quando a vontade de fazer é maior do que o tempo disponível. Ainda assim, conseguiram envolver a Secretaria de Educação e amarrar praticamente todos os setores culturais. O momento foi marcante para o livro e para o incentivo à leitura. Estima-se que mais de 500 pessoas tenham estado envolvidas na empreitada. Isso é importante porque, quando uma iniciativa cultural mobiliza tanta gente, ela deixa de ser apenas um evento. Passa a ser uma construção coletiva.

 

Voluntário

Marcelino sabia que eu poderia ajudar e, de pronto, lancei mão dos meus contatos com escritores dos grandes centros. Fiz uma lista e convenci alguns amigos, como Ziraldo, Zélio, Fausto Wolff e outros escribas que se sentiam atraídos por Foz do Iguaçu. Eles, somados aos convidados pelo CEAEC, formaram um grande encontro de pensadores brasileiros. Quase todos palestraram e autografaram os títulos presentes.

A cidade, por alguns dias, deixou de ser apenas destino turístico ou da muamba. Tornou-se também destino cultural.

 

Para descontrair

Um momento hilário ocorreu quando o CEAEC — Centro de Altos Estudos da Conscienciologia — resolveu receber aquela gente toda, refiro-me aos escritores, para um almoço com Waldo Vieira. Fausto Wolff, conhecido por sua marcante preferência etílica, interrompeu a fala do anfitrião:

“Waldo, cadê o uísque?”

A água mineral com gás era, até então, a bebida mais forte servida pelas bandas do Bairro Cognópolis. Wolff precisou segurar a crise de abstinência no gogó. Há momentos em que a literatura, felizmente, sabe rir de si mesma.

 

O destino é implacável

Passado o evento, tamanha foi a repercussão que, durante meses, não se falava em outra coisa. Mas, vai lá saber a razão, a feira acabou não sendo realizada no ano seguinte, nem no outro. Aí eu havia assumido a direção da Fundação Cultural e, um dia depois da nomeação, Paulo Mac Donald ordenou:

“Se não der um jeito de fazer de novo a Feira do Livro, vai voltar a trabalhar no jornal.”

Barbaridade! Era uma forma bastante peculiar de compreender a gestão pública: ou eu fazia a feira, ou voltava para o meu habitat natural, o jornalismo.

 

Arrumação da casa

Marcelino precisou deixar a Fundação Cultural contra a vontade. Sentiu muito com a necessidade de se afastar, mas faço questão de honrá-lo aqui: deixou a casa em ordem. Um espelho. E não seria diferente com alguém como Pasini e toda a equipe de servidores que lá trabalhava. Faço aqui um parêntese: entrei e saí da Fundação Cultural, sete anos depois, sem mover um único funcionário de lugar, nomeado ou concursado. Não considero isso uma façanha administrativa. Considero uma obrigação de quem compreende que instituições públicas não podem ser tratadas como extensões das preferências pessoais de seus dirigentes.

 

Novo formato

Mas realizar um evento literário daquela dimensão não era tarefa simples. E, para variar, o escorpião no bolso do Paulo colocava a cauda para fora. Dava para ouvir as garrinhas se esfregando. Foi então que surgiu a ideia de conversar com Luiz Fernando Emediato, jornalista, grande nome do ramo editorial e responsável pela Geração Editorial. Ele disse que conhecia uma organizadora de eventos literários muito competente. Foi assim que Sueli Brandão desembarcou em Foz do Iguaçu, notoriamente conhecida pelo sucesso na realização da Feira do Livro de Joinville. A partir dali, a ideia deixou de ser simplesmente repetir uma experiência. Era preciso pensar em algo maior, capaz de colocar Foz no circuito nacional dos eventos literários.

 

E o Waldo?

Paulo organizou um jantar em sua casa e fui incumbido de articular as panelas. Waldo Vieira compareceu levando de presente dois volumes do vocabulário ortográfico da conscienciologia. Cada livro possuía cerca de um milhão e meio de palavras, verbetes e seus significados. Foi aí que entendi o quanto aquela gente estudava e a profundidade de seu pensamento. Mencionamos a ideia de revitalizar o evento literário, e ele sacou rápido:

“Olha, a experiência que realizamos na praça foi ótima, mas penso em moldar eventos assim de outra maneira. Não participarei diretamente, mas vocês terão todo o apoio dos nossos colaboradores.” A resposta dizia muito. Não se tratava apenas de dinheiro ou infraestrutura. Havia ali a compreensão de que um evento cultural poderia produzir algo maior do que sua própria duração.

 

O Salão

E assim, em 2008, realizamos o Salão Internacional do Livro, ocupando o trecho da Rua Benjamin Constant no quarteirão que abriga a Fundação Cultural. O evento aconteceu entre 1º e 10 de agosto, atraindo livreiros, escritores, editores e celebridades das letras de todo o país, além de participantes da Argentina e do Paraguai. O público foi extraordinário, mesmo com o mau humor climático. O sucesso se repetiu em 2009, 2010 e 2011, sob minha gestão, com recordes de participação a cada ano. Em 2012, a Fundação Cultural passou a ser presidida por João Adelino de Souza, e a Feira do Livro mudou-se novamente para onde havia começado: a Praça do Mitre.

 

Saldo positivo

Escrevo além do que sei sobre a história — e serei sempre rigoroso com ela. Mas posso afirmar, sem exagero, que os Salões Internacionais do Livro foram acontecimentos que contribuíram enormemente para a cidade e sua população. Foram eventos grandiosos, realizados, em minha época, com pouco dinheiro e um retorno cultural imensurável. Havia distribuição de vales-livro para crianças da rede pública; plena interação com professores; e grandes editoras de todo o país doando exemplares para as oito bibliotecas espalhadas pelos bairros, que passaram a compor os Centros de Convivência. Dava muito trabalho para o corpo de bibliotecárias distribuir todos aqueles volumes pela cidade. E esse talvez seja um dos aspectos mais importantes que não deveriam ser esquecidos: o livro não ficava restrito ao pavilhão, à praça ou à fotografia oficial. Ele circulava. O Salão do Livro de Foz do Iguaçu tornou-se um orgulho paranaense e, pela primeira vez, a atenção do setor se voltou efetivamente para o interior. A cidade conquistou uma data garantida no calendário nacional — algo crucial e transformador. Escritores e seus agentes passaram a ligar para perguntar:

“Quando será o salão este ano?”

Parece uma pergunta simples. Não é. Quando um evento passa a ser procurado espontaneamente por escritores, editoras e agentes culturais, ele deixa de depender exclusivamente da vontade de quem ocupa o gabinete naquele momento. Adquire identidade própria. E identidade cultural é uma das coisas mais difíceis de construir e uma das mais fáceis de destruir.

 

E agora?

Jamais irei desdenhar o trabalho de sucessores ou daqueles que passaram a se ocupar do evento. Houve quem reclamasse porque dava muito trabalho. Escuto a população e lamento algumas coisas que, às vezes, ouço. Por outro lado, confesso que sinto arrepios quando tomo conhecimento do volume de dinheiro despejado nos eventos contemporaneamente, especialmente quando o retorno cultural parece distante daquilo que seria razoável esperar. Devemos sempre comemorar a existência da “Feira” ou do “Salão” do Livro de nossa cidade. Afinal, trata-se de um patrimônio iguaçuense. Mas lamento profundamente que algo tão precioso tenha – ao longo do tempo – perdido brilho e tenha sido jogado de um lado para o outro, como se fosse uma obrigação burocrática, e não uma necessidade cultural. Um evento literário não deveria existir apenas porque está previsto no calendário. Deveria existir porque uma cidade que pretende ser culturalmente relevante precisa dele.

Tomara isso mude, mesmo.

Acredito em tudo aquilo que cresce e floresce — e em nada que empobreça pela falta de zelo, pela incompetência, pela ausência de visão ou pela desconexão com a própria história. Não faço essa afirmação dirigida a alguém em específico. É apenas o reflexo de uma constatação que considero essencial: ninguém criou sozinho a Feira ou o Salão do Livro de Foz do Iguaçu.

A iniciativa nasceu do coletivo. Nasceu da soma de pessoas, instituições, escritores, servidores, professores, voluntários, livreiros, leitores e gestores que, em momentos diferentes, entenderam que o livro precisava ocupar um espaço maior na vida da cidade.

Há um peso nisso. O peso da história.

E história não deveria ser apropriada como propriedade privada.

Por isso, a Feira é de todos.

O Salão é de todos.

E, sobretudo, o livro é de todos.

Que ninguém se esqueça disso.