A verdade que poucos querem ver e muitos preferem esquecer

A eleição passou, os números ficaram — e, entre vitórias, tropeços, surpresas e algumas contas difíceis de explicar, o Corvo resolveu conferir quem ganhou, quem perdeu e quem ainda precisa entender o que aconteceu.

Verdade verdadeira

Há muito a comentar sobre as eleições, começando pelos resultados: a vitória de uns, o fiasco de outros, enfim, as lições mais uma vez ensinadas e que, de novo, não foram aprendidas. Se, diante de situações assim, o jornalismo de opinião calar, sofrerá com a debandada de leitores. Políticos perdem votos; a informação não deve incorrer no mesmo prejuízo.

 

Os iguaçuenses na ALEP

Paulo Mac Donald Ghisi é inconteste: o campeão de votos. Pelo PP, número 11333, conseguiu a façanha de colher 43.208 votos em Foz do Iguaçu. Na última eleição municipal, havia feito 47.775. Pode-se afirmar, portanto, que possui um eleitorado fiel, difícil de deixá-lo na mão daqui a dois anos.

Usando de metáfora, porque é mais divertido, o que Paulo fez foi cobrar o escanteio e sair correndo para cabecear de frente para o gol nas eleições municipais — coisa que nunca escondeu. Chegou a dizer, em tom ruidoso: “se não me eleger, não participarei da eleição para prefeito”. E pode uma coisa dessas? E o povo foi na dele e votou! No total, fechou a conta com 45.276 votos no Paraná, sendo apenas 2.068 votos obtidos fora de Foz.

 

E o que ele vai aprontar?

Ah, nas entrevistas depois do resultado, ele já mostrou o tom da pintura. Vai para cima do governo municipal e usará sua cadeira na ALEP como ferramenta além da legislatura. Será, no mínimo, uma experiência diferente em toda a sua vida pública.

Se brigar pela vaga de deputado, sem esconder o desejo de voltar a ser prefeito, foi uma estratégia, Paulo fez bem feito e às claras.

 

Vai dar trabalho

O agora deputado estadual Paulo Mac está mais Lanche Feliz do que em muitos tempos. Dona Elenice que se prepare e comece a fazê-lo entender que, na prefeitura, dava para trabalhar de camiseta e chinelão. Na ALEP, precisará de pelo menos uns três ou quatro ternos, gravatas, pares de sapato e meias. Há um rito a ser cumprido.

Falando nisso, ontem havia um zum-zum de que há outra eleição próxima para o Mac disputar: a de presidente da Assembleia Legislativa do Paraná. E, se não concorrer pelo voto, é forte candidato no quesito idade.

 

Entendimentos

Nem saiu o resultado e o povo já especula como Paulo, Matheus e Yasmim Hachem se entenderão na composição de uma bancada iguaçuense na ALEP. Curioso: há direita, centro e esquerda, o que não nos dá muita margem quando o assunto são os entendimentos.

Matheus, por sua vez, já seria um dos nomes cotados para a Liderança do Governo. Afinal, jogou todas as fichas na mesa em favor de Moro, mesmo com a pressão do governo. Por esse aspecto, ele sempre contará com o apoio do papi Vermelhão, com a bola toda no PL.

Lembrando: Matheus Vermelho (PL), número 22888, fez 10.871 votos em Foz do Iguaçu dos 51.316 votos obtidos no Paraná. Ou seja, levou 40.445 votos de outras cidades.

 

Renovação

A pancada foi forte: 42,59% de renovação e sangue novo na ALEP. Isso nos leva a crer que demandará algum tempo até essa gente toda se entender.

O que se sabe é que há uma meninada por lá, gente antenada, preparada, com qualidade de debate. É o caso de Yasmim Hachem, uma contestadora de tudo, sobre tudo, desde pequenininha. Foi bem ensinada pela professora Silvana, sobretudo.

Não está errado escrever que ela foi um fenômeno eleitoral. Pelo PT, número 13413, fez 9.389 votos em Foz do Iguaçu, 100 votos a mais que a votação da correligionária Valentina na cidade. Mas Yasmim arrepiou mesmo fora de Foz: 33.954 votos.

Com um resultado assim, entra para o estrelato petista no Estado.

 

Quem foi quem?

O segundo pelotão eleitoral teve Cabo Cassol (PL), número 22090, com 20.071 votos, sendo 9.602 em Foz do Iguaçu e 10.469 em outras paragens.

Ricardinho (PSD), número 55550, fez 15.842 votos no Paraná, dos quais 11.071 em Foz e 4.771 fora dela.

SGT Carlos Souza (Podemos), número 20022, chegou a 14.479 votos, com apenas 1.028 em Foz e nada menos que 13.451 obtidos fora da cidade.

*Deoclécio Duarte (União Brasil), número 44222, fez 11.568 votos no Paraná, sendo 6.994 em Foz e 4.574 em outras cidades.

Valentina (PT), número 13133, somou 12.926 votos, dos quais 9.208 em Foz e 3.718 fora.

 

Terceiro pelotão

Fernando Duso (PV), número 43123, fez 4.533 votos no Paraná, sendo 1.679 em Foz e 2.854 fora. Sidnei Prestes (Podemos), número 20120, chegou a 3.585 votos, com 2.513 em Foz e 1.072 fora. Não se deu bem na arte do salto com paraquedas.

Inês da Saúde (PSD), número 55321, teve 2.557 votos no Paraná, sendo 2.047 em Foz e apenas 510 fora.

Já Mazé Saad (PCdoB), número 65650, conseguiu 2.125 votos, com 884 em Foz e 1.241 fora da terrinha.

Caê Traven, terceiro candidato do PT, número 13420, fez 1.807 votos no Paraná, sendo 309 em Foz e 1.498 em outras cidades.

Jairo Cardoso (PSDB), número 45022, chegou a 1.392 votos, com 1.224 em Foz e 168 fora.

Por fim, neste pelotão, Dra. Carla Rosane (PL), número 22224, conseguiu 1.161 votos, sendo 799 em Foz e 362 fora.

 

Quarto pelotão

É formado pela turma que ficou abaixo dos mil votos. E aí a régua eleitoral começa a ficar mais próxima da trena do que da fita métrica.

Érica Gonçalves (Missão), número 14011, teve 841 votos no Paraná, sendo 379 em Foz e 462 fora.

Giovani Fagundes (PDT), número 12666, fez 103 votos no Paraná, 64 deles em Foz.

Lori de Andrade (União Brasil), número 44007, chegou a 502 votos, sendo 407 em Foz e 95 fora.

Michelle Tapia (Podemos), número 20999, teve 265 votos no Paraná, 179 deles em Foz e 86 fora.

Bom, há quem precise se explicar diante da faisqueira. Mas cada um que acenda sua própria vela.

 

Deoclécio

Possivelmente ele mesmo ainda não saiba explicar o que aconteceu. Diante da campanha que realizou e do empenho dos últimos anos, a votação foi decepcionante. Mas, para alguém como Deoclécio, que mantém os pés no chão, o remédio é não desistir e seguir adiante. Aprendeu que é assim no seu longo percurso de vida pública.

É um empresário bem-sucedido, que ajuda e ajudou muita gente. Talvez, pelo bom coração, não tenha pedido nada em troca. E, como nos lembra Augusto dos Anjos, “a ingratidão é uma pantera”.

Poucos candidatos à Prefeitura de Foz realizaram uma campanha tão completa e bem-feita quanto a de Deoclécio. Este colunista ainda não teve tempo de analisar a fundo as razões de uma votação tão inesperada, mas ela pode estar associada ao peso de algumas dobradinhas e escolhas que obrigaram o candidato a mudar de partido.

Isso, aliás, resultou na indigestão de muitos que acreditaram no Ratinho e suas engenhocas travessas, que não serviram para muita coisa — a não ser, talvez, para a possibilidade de ele enfrentar o eleito Sérgio Moro daqui a quatro anos.

Notem: a maioria dos que se distanciaram do governo se deu bem.

Ratinho levou a política tradicional do Paraná para a mesma vala.

Pronto, falei.

Tudo o que poderia escrever sobre o Ratinho está nesta nota.

 

Câmara dos Deputados

Já escrevi bastante sobre meu amigo Vermelho (PL). E, como ele acaba de conquistar mais um mandato, talvez seja hora de fazer a conta sem paixão, sem torcida e, principalmente, sem esquecer a calculadora.

Com o número 2200, Vermelho recebeu 72.166 votos no Paraná, sendo 14.808 em Foz do Iguaçu. Foi o iguaçuense mais votado para a Câmara dos Deputados. Mas a história fica mais interessante quando se olha para trás.

Em 2018, na estreia na disputa por uma cadeira em Brasília, então pelo PSD, Vermelho fez 70.001 votos e foi eleito. Foz respondeu por 20.001 deles — nada menos que 28,6% de toda a votação estadual. Terminou aquela eleição em 28º lugar entre os eleitos.

Em 2022, já de PL, quase deu replay. Foram 70.790 votos, apenas 789 a mais que quatro anos antes. Crescimento modesto, de 1,1%. Em Foz, porém, a conta começou a mudar: 18.525 votos, 1.476 a menos que em 2018.

O que perdeu por aqui apareceu em outras praças: os votos fora de Foz passaram de 50 mil para 52.265. E Vermelho foi novamente eleito.

Chegamos a 2026. Novo mandato, nova conta: 72.166 votos. É sua maior votação nas três eleições, embora o crescimento continue sendo quase de conta de padaria: 1.376 votos a mais que em 2022, ou 1,9%.

 

Outra visão

O interessante, portanto, não está propriamente no tamanho da votação. Está no endereço dela.

Foz deu a Vermelho 20.001 votos em 2018, 18.525 em 2022 e 14.808 agora. Em oito anos, são 5.193 votos a menos na cidade. Enquanto isso, os demais municípios paranaenses passaram a responder por uma parcela cada vez maior de seu eleitorado.

Em 2018, os votos de fora representavam 71,4% do total. Em 2022, chegaram a 73,8%. Agora, em 2026, são 79,5%: 57.358 votos vieram de outros municípios.

 

Sem amarras

É aí que a eleição de Vermelho ganha uma leitura interessante. Ele praticamente conservou seu tamanho eleitoral no Paraná — algo em torno dos 70 mil votos nas três disputas —, mas mudou a composição dessa votação.

A dependência de Foz diminuiu progressivamente: a cidade representava 28,6% de seus votos em 2018, 26,2% em 2022 e 20,5% em 2026.

E há uma ironia que os números não escondem. O deputado federal eleito com 72.166 votos no Paraná não foi o mais votado em sua própria cidade. Em Foz, Flávio Ferrari chegou a 21.056 votos, contra os 14.808 de Vermelho.

Nada disso diminui o tamanho da conquista. Ao contrário: mostra uma peculiaridade da trajetória eleitoral de Vermelho. O candidato que saiu de Foz para Brasília parece ter aprendido, eleição após eleição, a não ficar preso à cidade de origem.

Se há uma “prova dos nove” possível nessa história, talvez seja esta: Vermelho continua sendo um deputado de Foz, mas seus votos já não cabem mais em Foz.

 

Quem sonhou com a Câmara dos Deputados

E, para não deixar ninguém dizendo que o Bico do Corvo só presta atenção em quem fez mais barulho, vamos aos demais candidatos de Foz que disputaram uma cadeira na Câmara dos Deputados — deixando de fora, por já terem merecido nota própria, Vermelho e Flávio Ferrari, o Faca na Bota.

Depois deles, quem aparece na frente é Chico Brasileiro (PSDB), com 14.302 votos no Paraná, dos quais 11.737 em Foz do Iguaçu. Thiago Kodama (PP) fez 6.692 votos no Estado, sendo 5.903 em Foz.

Na sequência vêm Dr. Ranieri (Republicanos), com 5.349 votos, e Airton José (MDB), com 5.155, dos quais 4.344 obtidos em Foz. Darlon Paraná Pop (Missão) chegou a 4.460 votos, enquanto Túlio Bandeira (PSDB) somou 3.504.

 

Na finaleira

Mais abaixo na régua eleitoral aparece Gilvan Federal (PT), com 2.651 votos, seguido por Marcio Rosa (PDT), com 1.999, e Sandra Tarabayne (Podemos), com 1.310.

Daí para baixo, a eleição começa a exigir lupa — e talvez um pouco de bom humor.

Luciano Alves (Podemos) fez 719 votos; Leandro Pinto (PSDB), 736; William Barros (Novo), 702; Ari Ribeiro (PSB), 615; e Paulinho do Asfalto (PDT) chegou a 527 votos.

São números que, numa eleição para deputado federal, mal dão para formar uma fila diante da urna — embora cada voto, como manda a democracia, tenha exatamente o mesmo peso.

 

E tem mais

Edson Fernando (PSB) ficou em 904 votos, perigosamente próximo da marca simbólica dos mil. É aquela fronteira eleitoral em que a campanha pode até ter terminado, mas a calculadora continua fazendo hora extra.

Já Claudinei Borges (Democrata), Elisangela Borges (Democrata) e Jajá da Saúde (Democrata) permanecem, na consulta realizada, sem totalização individual confirmada.

E eleição sem número confirmado é como promessa de campanha sem assinatura: a gente registra, mas espera a documentação.

No fim das contas, a lista mostra uma coisa curiosa sobre Foz: a cidade produz candidatos em quantidade, mas a transferência dessa força para uma eleição exige muito mais do que um número na urna, um santinho e a disposição de pedir voto.

Para alguns, a aventura rendeu milhares de votos. Para outros, algumas centenas. E houve quem tenha saído da eleição praticamente com o mesmo patrimônio com que entrou: um número, uma candidatura e boas histórias para contar.

Na política, até 527 votos podem render uma biografia. Só não garantem a sonhada cadeira em Brasília.

 

E o resto?

É muita coisa para caber em uma única coluna. E, além do mais, o Corvo está com a asa esquerda quebrada em dois lugares, depois de tropeçar e dar com o cotovelo no concreto — não me perguntem como isso aconteceu, porque nem ele sabe explicar.

Há ainda muito o que pensar e escrever. A eleição de Sérgio Moro, por exemplo, merece algumas linhas. E o segundo turno para presidente promete uma verdadeira briga de foice no escuro.

Por hoje, ficamos por aqui. O Corvo recolhe as penas, procura um poleiro e deixa a calculadora descansando.

E, se errou algum número, algum nome ou alguma conta, o espaço está aberto para a reparação. Afinal, neste Almanaque, até o Corvo tem direito ao contraditório.

 

Rogério Bonato analisa os resultados das eleições, entre surpresas, derrotas, vitórias e algumas contas que ainda não fecham.