40 anos de batismo nas águas do Iguaçu

O testemunho de quem viu a ousadia de Ademir Fernandes transformar o rugido das Cataratas em um modelo global de aventura e respeito à natureza.

Não foi fácil

A iniciativa conhecida como Macuco Safari completa 40 anos em 2026. Não sei a data exata, nem se haverá comemoração oficial, mas conheço bem a história e o quanto Ademir Fernandes matutou até o empreendimento dar certo. No passado, outros realizavam passeios de barco no Rio Iguaçu, mas sem suplantar as corredeiras. Eram embarcações rudimentares e perigosas. Ademir e seus parceiros e colaboradores visionaram algo grande, quase uma Disneylândia se comparado à emoção, ao gigantismo e à ousadia que o projeto exigia.

 

A trilha até o rio

Antes de ligar os motores, a aventura começou na densidade da selva. Ademir mapeou solitariamente a região, buscando um caminho que não ferisse a biodiversidade do Parque Nacional. Seguindo o curso de um riacho, redescobriu o Salto Macuco, uma queda de 20 metros que se tornou a antessala perfeita para o passeio. Ali, em meio a orquídeas e bromélias, percebeu que a contemplação deveria preceder a adrenalina. O projeto nascia sob o signo da preservação, batizado pelo pássaro que simboliza a resistência da nossa Mata Atlântica.

 

Cinema e realidade

Em 1986, enquanto o Macuco iniciava as operações, o mundo descobria a majestade das nossas quedas através das lentes do filme A Missão. Robert De Niro, Jeremy Irons e a trilha de Ennio Morricone moldaram a aura cinematográfica do destino. Mas, enquanto Hollywood exportava as imagens, Ademir trazia a engenharia: adaptou escapamentos para reduzir ruídos nos veículos de transporte até a barranca do rio, escolheu pneus que não agredissem o solo e, anos depois, pioneirizou a eletromobilidade sustentável. O que começou em uma palhoça rudimentar de sapê transformou-se no motor que impulsionou o turismo iguaçuense ao patamar global.

 

Barcos feitos sob medida

Navegar o Cânion do Iguaçu exige uma técnica que os manuais convencionais desconhecem. Como não existiam embarcações prontas para tal esforço, Ademir participou do desenvolvimento de modelos exclusivos. Enquanto operações estrangeiras, como no Niágara, deslizam em águas estáveis, o Macuco enfrenta águas brancas, redemoinhos e ondas estacionárias de classe 4. Essa necessidade de precisão criou uma tecnologia brasileira de exportação; hoje, os barcos projetados para o nosso rio são referência em durabilidade e segurança em todo o mundo.

 

A escola de pilotos

A Marinha concede a habilitação, mas o rio exige o diploma de mestre. No Macuco, a formação de um piloto leva de dois a três anos de prática intensa. É preciso aprender a ler os humores das correntes e as variações de vazão que alteram o cenário diariamente. Esse acervo de protocolos específicos explica o histórico de excelência da empresa. No Cânion, a segurança é inegociável e o piloto entende o rio como um organismo vivo, merecedor de respeito absoluto.

 

A ciência da segurança e o selo ISO

Em quatro décadas, o Macuco Safari consolidou-se como um laboratório de boas práticas. A operação é regida pela rigorosa ISO 21101, uma norma internacional específica para o Sistema de Gestão da Segurança no turismo de aventura. Essa certificação não é apenas um quadro na parede; é o alicerce que garante monitoramento constante das variantes do rio, manutenção preventiva rigorosa e treinamento contínuo das equipes. Operar sob o padrão ISO significa que cada manobra e cada colete salva-vidas fazem parte de uma engrenagem técnica voltada à proteção integral do visitante.

 

Risco calculado

Diferente da informalidade que muitas vezes ronda as atividades de lazer, o Macuco opera sob o conceito científico de “risco aceitável”. Amparada pela vigilância eterna exigida pelas normas internacionais, a operação apresenta índices de confiabilidade que superam modalidades consagradas do transporte mundial. É a prova de que o rigor técnico, aliado à tecnologia de ponta, é a maior salvaguarda da vida. O passeio é a tradução de que é possível viver o máximo da emoção com o máximo de controle.

 

O motor da fronteira

O impacto do Macuco Safari ultrapassa a emoção. O empreendimento sustenta 350 empregos diretos e mobiliza uma rede de 20 mil profissionais de transporte e serviços na região trinacional. Ao priorizar a “prata da casa”, a empresa gera uma distribuição de renda que irriga bairros como Porto Meira, Vila Yolanda e Carimã. A sustentabilidade ali é prática pedagógica: o rio torna-se sala de aula para alunos da rede municipal, que aprendem sobre preservação com quem realmente conhece cada curva do Iguaçu.

 

O veredito das corredeiras

Quarenta anos depois, o Macuco Safari não é apenas um atrativo turístico; é uma parte indissociável da alma de Foz do Iguaçu. O legado de Ademir Fernandes ensina que é possível desafiar a força bruta da natureza sem desonrar sua integridade. Ao navegar pelo cânion e sentir o vapor das quedas no rosto, o visitante não recebe apenas um banho de água, mas um batismo de respeito. Que as próximas décadas continuem a provar que, no embate entre a ousadia humana e a majestade do rio, quem vence é a vida.

 

Rogério Bonato (@rogerio.ro.bonato) • Facebook

Rogério Romano Bonato é testemunha de como o Macuco Safari ajudou a inserir Foz do Iguaçu no mapa do grande Turismo de Aventura.