Foz abre as portas e as urnas para os “paraquedistas”
Os números implacáveis do matemático Luiz Carlos Kossar escancaram como o eleitor iguaçuense financia o mandato alheio e esvazia a própria representatividade.
Nota da Redação (A puxada de orelha do Corvo):
Se tem uma coisa em que certos caciques e partidos políticos de Foz do Iguaçu são especialistas, é em inventar jurisprudência para o próprio fracasso. Por vaidade, picuinha de província ou pura falta de visão estratégica, loteiam candidaturas inviáveis e jogam o eleitor no mato. O resultado dessa bagunça generalizada é que a cidade entrega seu tesouro eleitoral de bandeja para quem nunca pisou aqui fora da época de caça ao voto. A culpa é do eleitor? Em partes sim, mas a munição foi fornecida com carinho pela incompetência partidária local. Só não aprende quem prefere continuar usando o chapéu de orelha de jumento.
A cidade e seus valores (e a burrice nas urnas)
Foz do Iguaçu cresce em número de eleitores, ostenta importância econômica, brilha no turismo e ganha peso estratégico no Paraná. Mas, num paradoxo de rasgar o juízo, a cidade perde força justamente onde deveria fincar o pé: na hora de votar. O mais recente e minucioso levantamento do professor e matemático Luiz Carlos Kossar, desenhado sobre dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), aponta o tamanho do suicídio político iguaçuense nas últimas seis eleições gerais.
O fenômeno é transparente (e assustador)
Vamos aos números — porque contra eles nem o mais picareta dos discursos consegue argumentar. Em 2002, expressivos 84,54% dos votos nominais para deputado federal em Foz iam para candidatos “da casa”. Em 2022, essa participação despencou para minguados 49,75%. No mesmo intervalo, a preferência pelos “paraquedistas” saltou de 15,46% para inacreditáveis 50,25%. Pela primeira vez na história, os candidatos de fora levaram mais votos em Foz do que todos os candidatos locais somados. Quem quiser conferir a autópsia do pleito, os dados estão públicos no TSE.


Na ALEP, o mesmo vexame
A bagunça não é exclusiva da Câmara Federal; na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) o rastro de sangria é idêntico. O percentual de votos destinado aos pratas da casa caiu de 89,02% (em 2002) para 68,26% (em 2022). Em contrapartida, os forasteiros pularam de 10,98% para 31,74%. Uma barbaridade! Em números absolutos, o levantamento de Kossar mostra que os candidatos de fora abocanharam 13.235 votos em 2002 e saltaram para 40.189 votos em 2022 — mais que o triplo! Essa doação generosa daria para eleger com folga mais um deputado estadual exclusivo para Foz.
70 mil votos jogados no “lost” político
Façamos as contas do desastre de 2022: 69.878 votos para deputado federal foram doados a candidatos de fora, enquanto os nomes da cidade somaram 69.175. Praticamente metade de todo o eleitorado iguaçuense assinou um cheque em branco para deputados que, no dia seguinte à posse, não sabem nem onde fica a cidade. Na eleição estadual, foram mais 40.189 votos evaporados. Somados, são mais de 110 mil votos exportados sem qualquer garantia de retorno. O forasteiro leva as emendas para a sua base e Foz fica com a conta do prato que não comeu.
A arte de pulverizar
Em 2022, o eleitor de Foz pulverizou suas fichas entre 586 candidatos a deputado estadual e 396 a deputado federal. Diante desse loteamento, o resultado é a inversão do processo: a cidade precisa “importar” voto de fora para salvar seus próprios nomes. Exemplo claro: em 2022, Vermelho se reelegeu deputado federal com 70.790 votos no total, dos quais apenas 18.525 vieram de Foz e 52.265 foram buscados em outros municípios. Matheus Vermelho foi eleito deputado estadual com 29.484 votos, sendo 10.884 em Foz e 18.600 fora (com votos espalhados em 262 cidades paranaenses).
O paradoxo iguaçuense
A matemática é cruel: enquanto forasteiros fazem festa no quintal iguaçuense, os candidatos da terra precisam gastar sola de sapato em centenas de municípios paranaenses para compensar a pão-durice do eleitor local. Foz virou terra de ninguém, um balcão de negócios eleitoral aberto para quem aparece a cada quatro anos de sorriso largo. Chega disso né?
A erva daninha da fragmentação
O professor Kossar aponta o outro lado dessa engrenagem perversa: a proliferação desenfreada de candidaturas locais. Partidos e “lideranças” sem densidade, sem estrutura e sem viabilidade alguma lançam-se à disputa apenas para satisfazer vaidades pessoais ou arranjar legendas de aluguel. Essa multiplicação de candidatos locais funciona como uma erva daninha: não elege ninguém e atua apenas para ceifar os votos de quem teria chances reais. E não venham dizer que não sabiam!
Fórmula medonha
O entrave não é a diversidade de ideias — isso faz parte da democracia. O problema é a matemática fria da fragmentação. O bolo eleitoral da cidade não cresce na mesma velocidade que a ganância das legendas. Ao dividir o bolo em dezenas de fatias minúsculas, inviabiliza-se quem poderia alcançar o quociente eleitoral e garantir representação de fato.
Ideologia ou falta de juízo?
Isso não é debate entre esquerda, direita ou centro. É uma questão puramente territorial e de sobrevivência econômica. O setor político que fomenta esse cenário passa um atestado de infantilidade e coloca na população um vistoso chapéu de orelha de burro.
Falou e disse
“A cidade está perdendo, eleição após eleição, sua capacidade de eleger representantes próprios para a Assembleia Legislativa e para a Câmara dos Deputados”, diagnostica o professor Luiz Carlos Kossar. “Compreender esse movimento é fundamental para discutir o futuro da representação política de Foz do Iguaçu e os impactos diretos que isso gera no desenvolvimento do município.”
Contra números não há argumentos
A evolução do eleitorado deixa a contradição ainda mais berrante. Em 2002, quando Foz contava com 169.931 eleitores, os candidatos locais para deputado federal amealharam 101.947 votos. Duas décadas depois, em 2022, com o colégio eleitoral inflado para 196.153 cidadãos, a votação dada aos nomes da casa despencou para minguados 69.175 votos. E o rebanho não para de crescer: a projeção para 2026 aponta um contingente de 206.944 eleitores. Ou seja, mesmo com a base de votantes em franca expansão, a preferência pelos pratas da casa derreteu, enquanto a generosa doação aos “paraquedistas” saltou de 18.642 para impressionantes 69.878 votos.
O alerta final
Para Kossar, o cenário exige que a imprensa, os empresários e as lideranças sérias acordem antes que seja tarde. “Se continuar assim, Foz perderá espaço e voz nas esferas estadual e federal e, consequentemente, continuará sangrando na busca por recursos públicos” avalia.
Ensinamento para 2026
“A discussão não precisa ser reduzida a divisões partidárias. O ponto central é territorial: quem terá compromisso permanente com Foz do Iguaçu depois que as urnas forem fechadas? A cidade precisa decidir se continuará sustentando candidaturas alheias e aventuras locais ou se vai focar sua força matemática em quem tem viabilidade e compromisso real de representação”, arremata o professor Luiz Carlos Kossar.
