Das águas do Paraná aos oceanos: Foz do Iguaçu se consolida como polo de engenharia e tecnologia naval para o Turismo

Das antigas carpintarias artesanais às grandes embarcações metálicas, o know-how nascido nas barrancas de Foz do Iguaçu transforma a navegação de contemplação e projeta a engenharia iguaçuense para o Brasil.

Redação Almanaque Futuro

A história dos rios Paraná e Iguaçu, no extremo Oeste do Paraná, está indissociavelmente ligada ao pulsar de suas águas e ao engenho da navegação. Entre o final do século XIX e meados do século XX, o rio funcionou como a grande artéria de integração e povoamento da Tríplice Fronteira. Por ele navegavam vapores, chalanas e balsas, responsáveis por escoar a produção de erva-mate e madeira e por realizar o transporte de passageiros e veículos em um tempo em que as pontes internacionais ainda não existiam. Essa intensa atividade deu origem a uma qualificada carpintaria naval artesanal ao longo das margens dos dois grandes rios, onde se projetavam e mantinham embarcações adaptadas às fortes correntes e aos leitos pedregosos locais. Com a evolução do setor, surgiram os primeiros estaleiros estruturados. O fluxo crescente culminou na oficialização da Capitania dos Portos em 1933, até que, na década de 1980, a formação do reservatório de Itaipu transformou profundamente a geografia da região, inaugurando um novo capítulo para o transporte e a presença humana sobre essas águas.

As margens dos Rios Iguaçu e Paraná contemplaram muitas iniciativas de construções de embarcação ao longo da colonização

 

Além da tradição no transporte hidroviário, a cidade desenvolveu um pioneirismo desconhecido por muitos: a criação de tecnologia de ponta na construção de uma classe específica de embarcações voltadas ao lazer e à contemplação, os catamarãs. Essa iniciativa partiu da visão do empresário Ademir Fernandes dos Santos, profissional com décadas de atuação no setor de travessias e fundador do passeio Macuco Safari em meados dos anos 1980.

Percebendo a necessidade de expandir a navegação para outras áreas, ele liderou estudos náuticos para desenvolver um modelo perfeitamente adaptado às bacias locais, resultando na escolha dos catamarãs de grande porte em metal. Tratam-se de estruturas multicasco projetadas para aliar máxima eficiência hidrodinâmica, amplo espaço útil e segurança operacional. Construídos com dois cascos paralelos e independentes em aço, unidos por uma plataforma central, esses modelos oferecem uma área útil de convés consideravelmente maior do que as embarcações monocascos equivalentes.

A arquitetura dessas embarcações proporciona vantagens técnicas decisivas. A ampla separação entre os cascos garante elevada estabilidade transversal, reduzindo drasticamente o balanço na água. Paralelamente, as linhas delgadas das estruturas diminuem a resistência hidrodinâmica, permitindo alcançar maiores velocidades com melhor eficiência energética, enquanto a distribuição de peso resulta em um menor calado, ideal para a navegação em trechos de pouca profundidade. Tudo isso se soma à alta durabilidade e resistência mecânica do aço em operações contínuas.

A partir da expertise acumulada, realizaram-se as primeiras experiências focadas no dimensionamento do atendimento, englobando espaços para restaurantes panorâmicos, estrutura própria de píer e atracadouros, além do gerenciamento de tripulação. Posteriormente, foi construído o Kattamaram II para navegar os leitos dos rios Iguaçu e Paraná com passeios diários. O salto qualitativo e industrial ganhou força com a parceria do construtor naval Antônio Gamboa Júnior, do Estaleiro Gamboa Sul. O enlace estratégico permitiu o desenvolvimento de novas naves com evoluções tecnológicas com excelência tanto em águas fluviais quanto oceânicas.

Uma embarcação desse porte, como é o Kattamaram V, demanda muitos meses até ir ao rio, envolvendo centenas de profissionais habilitados

 

A construção das novas unidades da frota demonstrou a capacidade logística e de engenharia da região. Os cascos foram inicialmente moldados na sede das empresas, em uma área com mais de 7 mil metros quadrados na Avenida Morenitas, Bairro Porto Meira. De lá, divididos em quatro módulos, foram transportados em carretas até a área de estaleiro às margens do Rio Paraná, em terreno cedido pela Itaipu Binacional, onde foram executadas a montagem da casaria, os acabamentos e o lançamento à água. O sucesso do projeto atraiu atenção nacional, levando a cidade de Florianópolis a encomendar uma embarcação para a temporada de verão de 2023. Enquanto o Kattamaram IV começava a ser construído no litoral catarinense no ano anterior, prazos ajustados e exigências de acabamento demandaram uma solução audaciosa por parte de Ademir Fernandes: levar o Kattamaram III diretamente de Foz do Iguaçu até a capital catarinense, para atender os prazos e as expectativas.

A embarcação cumpriu uma jornada épica navegando por aproximadamente 45 dias pela Bacia do Prata até aportar no Atlântico, cumprindo rigorosamente o compromisso comercial. Mais do que uma entrega logística, a travessia serviu como um certificado de êxito e um rigoroso teste em águas abertas, atestando a solidez da tecnologia naval nascida na fronteira. Hoje, ambas as embarcações operam no turismo marítimo/costeiro de Santa Catarina, perfazendo roteiros em Itapema e Florianópolis. Enquanto isso, as atenções voltam-se para o Kattamaram V, prestes a realizar seu lançamento à água nos próximos dias. A nave passará por um período de aprimoramento e testes antes de receber os toques finais de decoração, acomodações e climatização para atender os visitantes em Foz do Iguaçu.

 

Números robustos e impacto econômico

O compromisso com o empreendedorismo transformador e o desenvolvimento regional sempre esteve no cerne da visão empresarial liderada por Ademir Fernandes. À frente de empreendimentos emblemáticos como foi a concepção do Macuco Safari, além de arrojados projetos de navegação —, o grupo empresarial consolidou uma trajetória marcada pelo crescimento contínuo e pela geração sustentável de renda. Por onde quer que expanda suas operações, a organização atua como um verdadeiro catalisador econômico, movimentando cadeias produtivas inteiras e impulsionando as cidades e Estados que a acolhem.

Essa presença marcante se reflete na formação de uma verdadeira legião de colaboradores. A força de trabalho direta abrange desde o corpo executivo e de gestão até marinheiros, guias turísticos, atendentes, motoristas, mecânicos, equipes de manutenção e profissionais de gastronomia. Trata-se de uma vasta rede de mão de obra especializada que se multiplica exponencialmente também no campo dos empregos indiretos, por meio de terceirizações e prestadores de serviços nos segmentos de transporte fluvial e marítimo, travessias, turismo de contemplação, aventura e construção naval.

O gigantismo dessa operação ganha contornos ainda mais expressivos no setor industrial e logístico. A construção e manutenção de embarcações de grande porte demandaram o processamento de mais de mil toneladas de chapas de aço e vigas metálicas, além de volumosos aportes em insumos de alta tecnologia, combustíveis, EPIs, sistemas modernos de navegação e componentes complexos para casas de máquinas. Esse fluxo contínuo de investimentos irriga uma extensa teia de fornecedores em todo o tecido comercial — que vai da indústria pesada ao setor de alimentos e bebidas —, garantindo também o padrão internacional dos restaurantes e serviços de excelência operados a bordo.

Embarcações como os Kattamarams III e IV encantam os turistas na orla catarinense em Itapema e Florianópolis

Para se ter uma dimensão, embarcações dessa magnitude necessitam de uma tripulação altamente coordenada para as operações, com pessoal atuando no convés, casas de máquinas, zeladorias, bares, serviços de garçons, cozinheiros e auxiliares, confeiteiros e, claro, tudo sob o olhar atento de um comandante com vasta experiência. Toda a operação é conduzida com rigorosa atenção às rotas, ao conforto e à segurança dos passageiros — cujo volume varia, dependendo da capacidade de cada barco, entre 250 e 500 pessoas acomodadas com total conforto.

O padrão de construção e acabamento provém contemplação, segurança e conforto aos navegantes.

 

Tamanha complexidade técnica e operacional reflete o cuidado dedicado a cada detalhe desse projeto de engenharia naval, que une robustez industrial a uma forte identidade visual. Essa busca por singularidade traduz-se inclusive no batismo da frota, revelando o conceito por trás de sua assinatura.

Vale registrar uma ressalva cultural sobre o nome da frota. A opção pela grafia Kattamaram em vez da forma ocidentalizada Catamarã consiste em um resgate etimológico direto do idioma tâmil, originário do sul da Índia e do Sri Lanka. Enquanto Catamarã representa a adaptação fonética adotada por navegadores europeus a partir do século XVII, a grafia com K e duplo T reconstitui a junção dos vocábulos originais kattu, que significa amarrar ou atar, e maram, que significa madeira ou tora. A escolha preserva o sentido ancestral do termo — toras de madeira amarradas —, conferindo identidade visual, originalidade e resgate histórico a essa frota nascida em Foz do Iguaçu.