A verdade não requer guarda-chuva

Quem caminha com os fatos não teme a tempestade — Rogério Romano Bonato analisa a política local sem meias-palavras.

Rogério Romano Bonato

O que vou escrever não ameaça – de modo algum – a Democracia, porque a gravo com a altivez do “D” maiúsculo que o respeito às instituições exige. Este texto não afronta o sistema, mas mira no sentido predatório da desorganização social; na pseudoanarquia política e autofágica que insiste em fazer das eleições um culto canibalesco.

A isso devoto minha mais profunda repulsa: como pode Foz do Iguaçu — uma cidade que chora diariamente a falta de representatividade, que se lamenta pela ausência de verbas e vive apontando o exemplo de concentração eleitoral de vizinhos como Cascavel — permitir uma fanfarrice com 19 candidatos a deputado estadual e 20 a federal? Assistimos, passivos, à dilapidação do capital político, tão comemorado, por exemplo, ao conquistar o segundo turno. Isso seria cômico caso não fosse veramente trágico. Foz devora as próprias chances em nome do ego individual.

Não peço desculpas aos filósofos de plantão ou àqueles que encontram algum sentido nessa balbúrdia após horas de debate estéril no boteco. Esse despropósito — uma verdadeira faca nas costas dos iguaçuenses — tem explicação sim senhor. É a mistura perversa de soberba, ignorância matemática e o aproveitamento mesquinho dos fundos partidários. É hora de escancarar as engrenagens que movem essa irresponsabilidade.

Primeiro, pela projeção para o pleito municipal: candidatar-se a deputado, mesmo sem a menor chance de êxito, virou uma estratégia nefasta de pré-campanha para a eleição de vereador ou prefeito dois anos depois. A cidade e o voto do cidadão são usados como mero trampolim de vaidade.

Segundo, pela incompetência negocial e fragmentação de base: o ego tacanho impede que pretensas lideranças sentem à mesa para fazer composições reais. Em vez de construir uma articulação regional forte e inteligente, o cenário local prefere a pulverização estúpida.

Por fim, pela tomada de assalto dos “paraquedistas”: a incapacidade de consolidar nomes fortes na terra abre um vácuo servido em bandeja de prata para que candidatos de fora venham buscar as “sobras” do eleitorado iguaçuense, sangrando ainda mais a nossa representatividade.

A culpa nunca é da população. É dessa classe política incompetente que subestima a capacidade de pensar dos formadores de opinião e desfere um tapa na dignidade de Foz do Iguaçu.

Alguns dos nomes colocados na urna não teriam votação suficiente nem para a eleição de porteiro de zona, quanto mais para ocupar vagas na Assembleia Legislativa ou na Câmara Federal. É triste e revoltante deparar-se com o fato de que pessoas com real potencial de voto deixam de ser eleitas pela ganância e pelo oportunismo de figuras insignificantes. Enquanto a irresponsabilidade se multiplica, o voto útil se esfarela, os forasteiros banquetear-se-ão com nosso patrimônio eleitoral e enterra-se, mais uma vez, o futuro da cidade.

Não é apenas desorganização: é um atentado explícito e um escarro no amanhã de Foz do Iguaçu.

 

Rogério Romano Bonato atua no jornalismo desde meados dos anos 1970, acumulando 46 anos de trajetória profissional em Foz do Iguaçu. Com passagens por grandes veículos de imprensa, construiu sua carreira em emissoras de rádio e televisão, além de ter fundado jornais diários impressos e revistas na região. Atualmente, assina a coluna No Bico do Corvo e escreve artigos de opinião com exclusividade para o Almanaque Futuro.