Um dia para refletir, em sentido amplo
Para cada um, o “Dia dos Pais” tem lá a sua medida de introspecção e, quase sempre isso leva à saudade, mesmo que o destino e a sociedade nos arrastem para águas distantes. A grande família iguaçuense se manifestou assim
Para cada um de nós, o Dia dos Pais carrega uma medida única de introspecção. Quase sempre, esse resgate interior nos leva à saudade — essa força silenciosa que permanece, mesmo quando o tempo e o cotidiano nos arrastam para águas distantes. Em Foz do Iguaçu, uma cidade feita de tantas histórias e origens, a data se manifestou justamente assim: como um espelho de nossas memórias e valores.
A maré vazante
Confesso que mantenho certa distância do apelo comercial das datas comemorativas, mas nunca me esquivo do que elas provocam. E não há como escapar da reflexão. Ao abrir as portas da casa em reforma, deparei-me com o chão tingido pelo rosa e o roxo das flores de Ipê — árvore que fora plantada por meu pai. Ao preparar um café e pedir uma música ao alto-falante, aleatoriamente Sérgio Reis passou a cantar: “Conheço um velho ditado, que é do tempo dos agáis: diz que um pai trata dez filho, dez filho não trata um pai”. A poesia de “Couro de Boi” remete à dor do esquecimento, lembrando-nos de quão precioso é valorizar a presença enquanto ela existe.
Correnteza da memória
Saí de casa cedo e vivi a maior parte da vida longe do seo Benito. Não estive ao seu lado quando partiu, após uma dolorosa batalha contra o câncer — marcas de uma vida inteira acompanhada pelo cigarro. No entanto, sou visitado por ele quase todas as noites. É com ele que mais converso em meus sonhos mais longos, onde o subconsciente organiza o afeto. Meu pai está presente em cada lembrança que construí com meus próprios filhos: no toque da areia nos pés durante as caminhadas na praia, nos animais de estimação, na primeira bicicleta, nas lições de matemática, nas histórias de ninar e até nas broncas sinceras. Dele recebi o ensino fundamental de nunca olhar para trás ao superar distâncias, mas de sempre aprender com os tropeços do caminho.
Tradição e novos horizontes
Em datas como essa, é natural trocarmos saudações fraternas. Contudo, neste último domingo, as conversas na cidade tomaram outro tom, impulsionadas por um recente acontecimento matrimonial que repercutiu na comunidade. Discutia-se a incompreensão e o distanciamento de um pai diante da escolha afetiva do filho — um rapaz de origem libanesa que se uniu a uma jovem brasileira.
Os choques culturais não são novidade em uma cidade fronteiriça e cosmopolita como a nossa, onde preceitos ancestrais por vezes colidem com os anseios de liberdade das novas gerações. Foz do Iguaçu orgulha-se de sua colônia árabe, uma comunidade admirável, generosa e perfeitamente integrada à identidade iguaçuense. A imensa maioria de suas famílias compreende que a hospitalidade desta terra se traduz no respeito às escolhas individuais, sobretudo quando fundamentadas no afeto.
Quando divergências dessa natureza ganham apelo público, o desconforto social surge não pelo desejo de julgamento, mas pelo anseio de ver a harmonia prevalecer sobre o rigor. A verdadeira riqueza de uma sociedade multicultural reside na capacidade de honrar suas raízes sem permitir que elas se tornem barreiras para o acolhimento do outro.
A vida segue
Que possamos cultivar as boas lembranças daqueles que nos formaram. Os ritos e as tradições têm o seu valor histórico, mas transformam-se à medida que a humanidade compreende que o afeto não possui fronteiras. Somos todos formados da mesma essência humana, aprendendo e evoluindo uns com os outros a cada geração.
Ouça a minha manifestação sobre a data e o conteúdo coluna no meu Instagram, e de quebra, um tema bonito e que fala alto sobre a saudade. https://www.instagram.com/reel/Db07Ug8R94M/?igsh=MXhhaml3c21kcDRjcw==
