Rádio Cultura de Foz do Iguaçu: 70 anos ampliando a voz dos iguaçuenses

Sete décadas de pioneirismo, integração regional e compromisso com a verdade na fronteira mais vibrante do Brasil.

Redação Almanaque Futuro

No coração da tríplice fronteira, onde a força das águas desenha a paisagem e a história se costura entre diferentes culturas, erguer um meio de comunicação na década de 1950 era um ato de pura audácia. Para compreender o nascimento da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu, é preciso fazer uma viagem no tempo e reencontrar uma cidade que, embora já cresse firmemente em sua vocação turística e abrigasse cerca de trinta mil habitantes, vivia em um isolamento quase absoluto.

Naqueles tempos, a imponente BR-277 era um sonho distante e a Ponte Internacional da Amizade sequer existia no horizonte. Quem precisava chegar ou sair do município por terra enfrentava estradas barrentas e traiçoeiras, onde os motoristas eram obrigados a amarrar pesadas correntes nas rodas dos veículos para não sucumbir ao lamaçal. As alternativas a essa epopeia terrestre eram os raros aviões que pousavam no antigo aeroporto central, no espaço onde hoje pulsa o Gresfi, ou as embarcações que desafiavam a força da correnteza do Rio Paraná.

Nesse cenário de isolamento geográfico, a rotina dos iguaçuenses era embalada pelo ecoar do serviço de alto-falantes idealizado por Estanislau Zambrzycki, cujas cornetas espalhadas pelas principais avenidas eram o único cordão umbilical informativo da cidade. O lazer local, por sua vez, resumia-se às sessões de um único cinema e ao encanto efêmero dos circos itinerantes que, de tempos em tempos, conseguiam se instalar na região.

Foi sob a atmosfera dessa Foz do Iguaçu pacata, mas ambiciosa, que desabrochou o espírito visionário de um grupo de pioneiros. No dia 23 de novembro de 1954, quinze homens movidos pelo desejo comum de integrar o Oeste do Paraná ao restante do país assinaram a ata de constituição da emissora. O Dr. Antônio Ferreira Damião Neto, o Major José Acylino de Castro, Antonio Ayres de Aguirra, Augusto Araújo, Vitório Basso, Theophilo Wakim, Jorge Franco, Alberto Ferreira Damião, Julio Rocha Neto, Romário Vidal, João Lobato Machado, José Fernando Campean Soares, Isidoro Buchieta, Afonso Bernardi e Francisco Guaraná de Menezes uniram forças e propósitos para que a comunicação ganhasse asas através das ondas do rádio.

A engenharia e o comércio deram as mãos sob a liderança inicial do diretor comercial Antônio Ferreira Damião Neto e do diretor técnico Major José Acylino de Castro. Após um cuidadoso período de estruturação, no dia 22 julho de 1956, os microfones foram abertos oficialmente, inaugurando uma trajetória inseparável da própria identidade da fronteira. Em seus primeiros acordes, a rádio ocupou uma sala no andar superior do Hotel Cassino, tendo como vizinha a Capitania dos Portos. Mas a grandeza do projeto pedia mais espaço, o que motivou a mudança para uma sede própria e suntuosa na Rua Dom Pedro II.

O novo endereço tornou-se o centro cultural da cidade, abrigando um anfiteatro com auditório completo onde eram realizados grandiosos programas ao vivo, atraindo um público numeroso e entusiasmado que fazia filas para ver o rádio acontecer diante de seus olhos.

Operando em ondas curtas e médias, a Rádio Cultura foi um verdadeiro milagre geográfico, levando as notícias de Foz para o mundo e trazendo o mundo para mais perto da comunidade. Ela transformou-se no principal vetor de união entre a fronteira e as grandes capitais brasileiras, agindo diariamente como uma terna emissária de recados, notícias de saúde e reencontros familiares para os moradores dos rincões mais distantes da região.

Ao longo de quase sete décadas de caminhada contínua, a emissora assistiu de camarote e registrou em seus arquivos a metamorfose da cidade, cobrindo com precisão desde as primeiras grandes obras estruturantes até o colosso da construção da Usina Binacional de Itaipu. Por seus estúdios ecoaram as vozes de grandes comunicadores que alegraram gerações inteiras e foram entrevistadas as maiores personalidades globais que vinham fascinadas conhecer a monumental hidrelétrica e as deslumbrantes Cataratas do Iguaçu.

As transformações societárias e os avanços tecnológicos naturais do tempo mudaram a roupagem da rádio, mas sua alma permaneceu blindada contra o esquecimento.

Ao completar setenta anos de história, a Rádio Cultura de Foz do Iguaçu não é apenas uma lembrança nostálgica do passado, mas um patrimônio vivo, dinâmico e pulsante da comunidade, consolidando-se como uma das marcas mais tradicionais e respeitadas de todo o estado do Paraná. Mantendo firme o seu compromisso com a valorização da vida regional, ela se reinventou como um ativo e indispensável meio formador de opinião, dedicando a maior parte de sua programação contemporânea ao jornalismo sério e de proximidade.

É com essa força ética e comunitária que a emissora segue cumprindo sua missão mais bonita: a de ser um elo indissolúvel entre as pessoas e as suas histórias, continuando, dia após dia, a ampliar com orgulho a voz de todos os iguaçuenses.

Confira aqui o Suplemento Especial completo, publicado em PDF