46ª Fartal reafirma tradição do artesanato manual e fortalece geração de renda para mulheres e clubes de mães

Tradição, inclusão e empreendedorismo marcaram a retomada do verdadeiro artesanato manual na FARTAL

Por Eliane Luiza Schaefer

 

 

O artesanato ocupa um espaço importante na trajetória da FARTAL. A primeira edição da Feira de Artesanato e Alimentos de Foz do Iguaçu aconteceu em 1976, organizada pela comunidade iguaçuense e reunindo mulheres, professoras, donas de casa e artistas que encontravam no trabalho manual uma forma de renda, pertencimento e valorização cultural.

Uma das figuras mais importantes desse movimento foi a professora Anamaria Teigão, considerada uma das fundadoras da feira e incentivadora da organização artesanal na cidade. Seu legado foi eternizado com a Estação Cultural do Artesão Anamaria Teigão, na Praça Getúlio Vargas.

Naquele período, as peças eram produzidas dentro das casas, quintais e pequenos ateliês improvisados. Crochê, bordados, pintura em tecido, cerâmica, trabalhos em madeira, sementes e fibras naturais carregavam identidade cultural e criatividade. As exposições aconteciam em barracas simples, montadas coletivamente, reunindo artesanato, gastronomia e apresentações culturais.

Com o passar dos anos, a FARTAL cresceu e acompanhou o desenvolvimento da cidade. Em meio às transformações, surgiu também a necessidade de resgatar a essência do artesanato autoral diante da circulação de produtos industrializados e revendidos.

Em 2026, durante a 46ª edição da feira, esse retorno às origens ganhou força. Com olhar atento da presidente da Fundação Cultural, Patrícia Iunovich, o espaço do artesanato foi desenvolvido em parceria com a Secretaria da Mulher, por meio da secretária Sheila Melo, fortalecendo a valorização do trabalho artesanal autoral.

Pela primeira vez, a feira contou com curadoria da jornalista, artista plástica e produtora cultural Eliane Schaefer, priorizando trabalhos produzidos por artesãs autônomas, clubes de mães e mulheres empreendedoras, com foco no empoderamento feminino, geração de renda e valorização do feito à mão.

Segundo a secretária da Mulher, Sheila Melo, o fortalecimento do artesanato também representa uma ferramenta importante no enfrentamento à violência contra a mulher e no incentivo ao empreendedorismo feminino.

“Quando a mulher conquista autonomia financeira, conquista também independência, autoestima e voz. O artesanato transforma vidas, fortalece famílias e abre caminhos para muitas mulheres recomeçarem”, destacou.

A proposta da feira foi reafirmar o compromisso com peças produzidas manualmente, valorizando técnica, dedicação e identidade de cada artesã.

Foto: Abel da Banca

Entre os destaques da 46ª FARTAL esteve a participação da Associação Iguaçuense de Apoio às Pessoas com Deficiência Visual, que levou ao público produtos confeccionados manualmente pelos participantes da entidade, reforçando a importância da inclusão e da acessibilidade.

Segundo o pastor Wallace, representante da associação, o trabalho desenvolvido demonstra que as limitações não impedem a superação e a construção de oportunidades.

“Sabemos que convivemos com diferentes limitações, mas superamos barreiras todos os dias. Talvez não enxerguemos com os olhos, mas enxergamos com o coração. Nosso sonho é construir um país mais acessível, não apenas para pessoas com deficiência, mas para todos os cidadãos”, afirmou.

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A presença da entidade emocionou visitantes e reforçou o papel social da feira, mostrando que o artesanato também é ferramenta de inclusão, autonomia e dignidade.

Segundo a artesã Eliane Marchetto, quem conhece o segmento reconhece facilmente o verdadeiro trabalho artesanal.

“Quem olha para um artesanato sabe identificar o feito à mão. Trabalho há anos no segmento. Comecei com bolsas, passei para boleiras, suplás e jogos americanos. Desta vez, trouxe para a FARTAL minha coleção de joias em crochê”, relata.

Para Eliane Vogado, do Ateliê AuAu, participar da FARTAL tem significado especial.

“A FARTAL foi onde tudo começou para mim. Trabalho com roupinhas para cachorro, sempre com cuidado nos acabamentos para não machucar os aumiguinhos. O feito à mão é minha paixão”, afirma.

Entre os corredores da feira, histórias emocionam. Mulheres dos clubes de mães relatam atuar no artesanato há mais de 40 anos, preservando técnicas tradicionais passadas entre gerações. Muitas peças levam dias ou até meses para serem concluídas devido à riqueza dos detalhes e ao acabamento minucioso.

Nas últimas décadas, especialmente a partir dos anos 2000, Foz do Iguaçu passou a viver um movimento de valorização do artesanato autoral. Artesãos, coletivos culturais e entidades ligadas à economia criativa passaram a defender a identidade local diante da crescente circulação de mercadorias industrializadas e importadas da fronteira.

Esse movimento fortaleceu técnicas como crochê, bordado, patchwork, biojoias, pintura manual, trabalhos em madeira, sementes, cerâmica e reciclagem criativa. Mais do que comercializar peças, os artesãos preservam histórias, memórias e identidade cultural.

A valorização do artesanato manual também reforça um alerta importante: não se deve confundir um trabalho feito à mão, carregado de identidade, tempo e dedicação, com produtos industrializados produzidos em larga escala. Cada peça artesanal representa criatividade, história e o cuidado de quem transforma matéria-prima em arte.