A memória necessária e os gargalos do progresso
O desafio de uma nova lei de licitações e os obstáculos de obras feitas "nas coxas", Foz do Iguaçu quer o rumo da eficiência. O problema é encontrar
Cinco mundos
Os noticiários se dividem em três assuntos, as bravatas de Donald Trump, coisa que ninguém merece, os astronautas dando voltas na Lua e, a devassa do caso Master, que já se parece como bola de boliche pronta para acertar os pinos de todas as cores, partidos e envolvidos em todos os setores da República. Uma barbaridade! O quarto mundo é a política paranaense e o quinto, as ocorrências gerais em Foz do Iguaçu. Vamos abordar as coisas da cidade. As outras todo mundo já sabe, olhando os noticiários.
Na terrinha
Começando pela cidade, ai que saudade do Chico de Alencar, esses dias sonhei com ele. Na verdade, saudade de todo mundo. Outro dia fui ao boteco e fiquei imaginando as cadeiras vazias, cada uma sendo preenchida por alguém que se foi. E tempo passa, e nada das pessoas serem lembradas pelo tanto que fizeram. Osires Santos, por exemplo, onde é que está uma rua com o seu saudoso nome? O mesmo escreveria para Sadi Carvalho, Ennes Mendes da Rocha, Selmo Jandir Aragão, pessoas assim não deveriam habitar apenas jazidos ou a memória dos que ficaram, merecem ser lembradas o tempo todo. Gostei de saber que alguns vereadores estão preocupados com isso e mais ainda, que há setores da Fundação Cultural trabalhando a memória. Lembrar os que fizeram é importante para localizar a história.
Blindagem da economia local
A Câmara Municipal de Foz do Iguaçu avançou em uma etapa crucial para a concretização de um projeto de lei pioneiro no Brasil, de autoria do vereador Bosco Foz, que visa reestruturar o sistema de compras públicas no município. A iniciativa, que já passou pelo crivo de uma Comissão Especial, surge como uma resposta direta a um dado alarmante para o desenvolvimento regional: atualmente, cerca de 80% dos recursos destinados a licitações municipais acabam saindo da cidade, uma vez que a grande maioria das empresas vencedoras não possui sede em solo iguaçuense. O projeto busca inverter essa lógica histórica, criando mecanismos que permitam ao empresariado local competir de forma mais justa e eficiente. Ao priorizar a retenção dessa fatia orçamentária, a proposta não apenas fortalece o comércio e a indústria de Foz, mas assegura que o dinheiro público cumpra seu papel social de gerar emprego, renda e circulação de riqueza dentro da própria comunidade que paga seus impostos.
O rigor técnico como garantia
A viabilidade desse novo Marco das Licitações em Foz do Iguaçu sustenta-se em um alinhamento rigoroso com a Lei Federal nº 14.133/2021, garantindo que o texto municipal moderno não fira as normas gerais da União. Com o suporte de especialistas no setor, o projeto incorpora ferramentas de governança, transparência e planejamento que permitem ao município estimular a competitividade sem abrir mão da eficiência administrativa. Mais do que um desejo político, a proposta se mostra viável por atacar um problema estrutural através de métodos de estímulo às micro e pequenas empresas locais, o que está previsto na legislação nacional de apoio ao desenvolvimento regional. Se aprovada, a lei colocará o Legislativo iguaçuense na vanguarda do país, provando que é possível modernizar a burocracia estatal para que ela funcione como uma engrenagem de fomento sustentável, garantindo que os investimentos da prefeitura retornem para a população em forma de uma economia local mais robusta e independente.
A hora da verdade
Bom, a Lei poderá garantir os meios, mas exige atitude. Com a iminente aprovação da nova Lei de Licitações, o empresariado iguaçuense chegará, enfim, ao seu momento de maior desafio. Se por um lado o poder público constrói a ponte para que o recurso permaneça em nossa economia, por outro, o setor produtivo precisará “passar sebo nas canelas” para atravessá-la. É preciso ser realista: vencer um processo licitatório não é esperar que o desenvolvimento caia do céu, mas sim apresentar rigor técnico, certidões impecáveis e uma organização administrativa que não deixe margem para dúvidas.
Se virar no 30
A nova legislação funcionará como uma prova de fogo para o nosso mercado local. Teremos a oportunidade de descobrir se as empresas de fora venciam apenas por falta de incentivo regional ou se possuíam uma cultura de organização superior. Para que a lei não se torne letra morta, o empresário de Foz do Iguaçu terá que se “virar nos trinta”, profissionalizando sua gestão e demonstrando vontade real de participar do jogo. A oportunidade está sendo criada, mas a vitória na mesa de negociações dependerá exclusivamente da competência e do empenho de cada um em se mostrar apto para o novo cenário. Há várias empresas de Foz que participam e vencem licitações. Isso é uma realidade.
Atletismo forçado
Quem reside às margens da Perimetral Leste ou da duplicada BR-469 já pode ir preparando o cronômetro e, quem sabe, contratar um personal trainer. É que, pelo andar das obras, o cidadão comum terá que se tornar um especialista em corrida de obstáculos para cumprir a simples tarefa de atravessar a via. Entre muretas de concreto que parecem barreiras olímpicas e o fluxo intenso de veículos, a travessia virou esporte de alto rendimento — e altíssimo risco. Pensa na cena: para levar o filho à escola ou buscar o pão, o morador precisa de um fôlego de maratonista e a agilidade de um saltador. Se a intenção dos projetistas era incentivar a atividade física, parabéns, acertaram em cheio; mas se era garantir mobilidade urbana, parece que esqueceram que o povo ainda não aprendeu a voar.
Só os bichos têm vez
A ironia das grandes obras viárias de Foz do Iguaçu beira o surrealismo. Nas planilhas e plantas, as leis ambientais garantiram, com todo o rigor, os acessos e passagens para a nossa fauna — o que é louvável. O problema é que, enquanto os bichos ganham passagem segura, o ser humano ficou no “salve-se quem puder”. No trecho da BR-469 entre o Hotel Carimã e o Golf Clube, onde pulsa a força de trabalho da nossa hotelaria e dos parques temáticos, o trabalhador olha para o asfalto e não enxerga uma passarela, um ponto de ônibus ou um sinal de respeito ao pedestre. É um cenário de isolamento. Se não houver uma atenção urgente nesses projetos, o que veremos em breve é o asfalto tomado por manifestações legítimas de quem só quer o direito básico de ir e vir sem virar estatística de atropelamento.
O nó logístico
A Perimetral Leste nasceu com a promessa de desafogar o trânsito pesado do coração de Foz do Iguaçu, mas a realidade das pistas conta uma história diferente. Quem circula pela Avenida das Cataratas ainda divide espaço com gigantes que, longe de desobedecerem às regras, seguem por ali por absoluta falta de alternativa. O isolamento das vias marginais criou um paradoxo: as empresas instaladas no nosso distrito industrial — um complexo que muitos só notaram agora com a obra à vista — ficaram “ilhadas”. Foz pode não ter a robustez industrial de Cascavel, mas possui um setor produtivo vivo que hoje sofre com o bloqueio de acessos básicos. No fim das contas, a encrenca diária entre o tráfego fronteiriço e o abastecimento local persiste porque as autoridades parecem consultar o mundo inteiro, menos as entidades que realmente entendem do gargalo, como o Sindifoz. Enquanto o diálogo técnico for ignorado, a Perimetral será apenas um asfalto novo para problemas antigos.
Projetos nas coxas e a guerra dos egos
Quando as coisas dão errado, inicia-se a já conhecida guerra de narrativas: de um lado, a crítica feroz às obras; do outro, a defesa ideológica de quem as executa. O erro, contudo, está na raiz. Discutir viabilidade após o concreto secar é o mesmo que colocar “piá de castigo” depois que a vidraça já quebrou. É incompreensível que uma via estratégica como a Perimetral tenha sido concebida em pista única e com acessos bloqueados aos bairros, num formato que exala o amadorismo do “feito nas coxas”. Há cerca de um mês, o empresário Celso Calegário expôs no programa Contraponto, da Rádio Cultura, o que muitos temiam: o diálogo com a Receita Federal e os setores produtivos está travado por excesso de ego e falta de pragmatismo. O tempo passa e ninguém parece disposto a “se coçar” para chamar à mesa quem realmente vive a logística da fronteira. Sem essa humildade institucional, o desenvolvimento de Foz continuará patinando na vaidade de poucos.
Rogério Romano Bonato escreve a coluna No Bico do Corvo com exclusividade para o Almanaque Futuro
