O Corvo no chope (de água) e o xadrez de Ratinho
Entre o ócio criativo de De Masi e a movimentação das peças políticas no Paraná, o colunista reflete sobre a qualidade do que chega às nossas torneiras e às nossas urnas.
Sumiço do Corvo
Todo mortal tem direito ao descanso, até mesmo este pássaro que, dentre outras, é um comedor de carniça. O caso é que apenas uma semana (na opinião deste colunista), mesmo em razão de pane eletrônica, não é o suficiente para se alcançar um bom nível de ócio criativo, como ensinou o sociólogo e escritor Domenico de Masi. Vamos reparar: o “ócio criativo”, segundo Domenico, é a conciliação harmoniosa entre trabalho, estudo e lazer. Não significa não fazer nada, mas sim um estado mental ativo onde o tempo livre é utilizado para produzir novas ideias, inovar e aumentar a qualidade de vida, integrando prazer à produtividade. Não demanda, assim, um tempo determinado. E quanta coisa aconteceu em uma semana, hein?
Andança ligeira
A janela eleitoral é pequena, logo isso obriga os políticos a decidirem o destino com agilidade. Haja esforço de pensamento! E como muitos não sabem administrar a criatividade e dar um tempo para a cabeça, acabam se arrependendo mais tarde. No plano da realidade, os fatos políticos mais marcantes foram a decisão de Sérgio Moro de ingressar no PL e de Rafael Greca se mudar para o MDB. Isso, em outras palavras, bagunçou o coreto.
Moro no PL
Dizem que isso causa um efeito demolidor, porque mexe com a cabeça dos eleitores mais conservadores e enquadrados na ideologia de direita. Agora resta saber se Sérgio Moro está migrando para a direita radical ou se a direita enveredou no rumo do centro. Dizem que Flávio Bolsonaro, lá no fundo, garante ser um político de centro-direita, o que seria uma maneira de ficar bem com o centrão nativo. Como isso será, só o tempo nos dirá. Mas há aí algumas questões que nos fazem pensar.
Pensar?
Sim, oras veja: prefeitos e vereadores do PL, de muitas cidades, disseram em alto e bom tom que seguiriam de olhos vendados a vontade do governador Ratinho Júnior, atendendo às suas vontades eleitorais. Cumprirão a promessa? Brincadeira de piás, com cuspe na palma da mão antes do cumprimento, são mais compromissadas que acordo entre marmanjos na política. O PL fará vigília cerrada no processo. Resta saber como Ratinho Júnior lidará com isso.
Sem nomes
Afinal, Ratinho acertou ou errou ao liberar o PL e partir para uma empreitada distante do bolsonarismo? Uns dizem que errou, mas há quem garanta que ele poderá recuperar terreno quando indicar apoio ao sucessor — e, neste caso, restaria apenas o Guto Silva, porque no processo eliminatório outros estão migrando para outras legendas. Parece haver novidades. Não está errado avaliar que os ventos eleitorais podem mudar; Ratinho poderá apoiar uma coalizão entre Greca, Requião Filho, Alexandre Curi e Guto, dependendo do andar da carruagem. Ele deve manter a corrida presidencial, mas, mesmo assim, as variáveis são muitas.
Não será tarefa simples
Escrevam: o que vem por aí não é coisa simples e nem pequena. O Paraná corre risco de polarização eleitoral e com pesos-pesados nos dois lados. Valerá muito o desempenho em campanha e a transferência de votos do “seo” Ratinho. Valerá o jeito de entregar a proposta aos eleitores e, de outro lado, a postura de Moro em busca do Executivo — coisa nova para ele. O fato é que tudo isso causará dúvidas na cabeça do eleitorado e também dos políticos. Ricardo Barros, por exemplo e como sempre, mostrou-se esperto: decidirá só em junho e olhe lá. Esperar, neste caso, é a providência.
Como assim?
Até os 45 minutos do segundo tempo, todo o cenário estará bem definido e saberemos se os paranaenses aceitarão o projeto do atual governo, bem como se Moro e o PL sustentarão os números. É uma matemática medonha, baseada no estica e puxa. Tá bem bom de pensar. Vamos mudar de assunto. Política já deu por hoje, iniciando a semana. Sim, ela começa no domingo!
Dia da água
Neste domingo (22), comemorou-se o Dia Internacional da Água. Em uma cidade como Foz do Iguaçu, com água por todos os lados — no lago, em Itaipu movendo as turbinas, nos arroios, riachos, afluentes e grandes rios que resultam em quedas d’água exemplares ao mundo; nas nuvens que andam despencando de uma vez só e nos aquíferos —, deveria ser uma data de grande reverência e reflexão. Cada um comemora ao seu modo: a prefeitura, por exemplo, optou por mover uma ação de limpeza no Rio Boicy, o mesmo cuja água representa a permanência dos migrantes. Chega a ser um contrassenso a celebração da “fonte da vida” limitada à desobstrução de bueiro, decorrente da ignorância, desleixo e falta de respeito da população, que ainda ignora os riscos da extinção da água no planeta. Bom, se há quem ainda acredita que o mundo é plano, o que dizer de outras coisas?
Está errado?
O quê? Limpar bueiro? Não está errado. É lição indireta, comunitária e braçal de meio ambiente, mas longe de preservar um bem tão precioso para a humanidade e tudo o mais que há na face da Terra. Saber lidar com a água em casa, sem desperdiçá-la, utilizando recursos naturais e cuidados para não causar a poluição, preservar as nascentes e respeitar minimamente essa enormidade de cursos d’água seria, sim, um grande serviço de preservação da vida em todos os dias do ano. Em muitos países, e até mesmo em algumas localidades brasileiras, as comemorações possuem um sentido inverso. Em Nova York, por exemplo, a população comemora bebendo água direto da torneira, tamanha a qualidade e esforço de preservar as nascentes no entorno de um dos maiores e mais movimentados centros urbanos que há. Aí os leitores vão perguntar: como o Corvo comemora o Dia da Água? Enchendo um copo e meditando, ecumenicamente: a dádiva sustentará o corpo nas próximas horas, até que se faça necessária a próxima dose. Simples, em um ato de agradecimento cristalino.
Falando em água
Esses dias uma conhecida, bem próxima, serviu um copo de água a este colunista. Tinha gosto de goma arábica, como se fosse uma substância pesada, adocicada, apesar de ser inodora. O líquido veio de um recipiente que custa cerca de R$ 25,00. A dileta senhora vai buscá-lo em uma distribuidora, como nas centenas de empresas que se dedicam à comercialização de um bem que jamais deveria ser vendido além daquilo que já pagamos para a Sanepar — uma conta que é proporcionalmente mais cara que a energia elétrica. Pois creiam: a água que sai das torneiras em Foz do Iguaçu é de altíssima qualidade, muito segura para beber diretamente da torneira, pois passa por rigorosos processos de tratamento e atende aos padrões de potabilidade do Ministério da Saúde.
Padrão de Qualidade
A água que chega à população é tratada com medidas de cloro para a desinfecção e flúor, seguindo procedimentos de controle e vigilância da qualidade. A Sanepar realiza análises diárias em laboratórios próprios, com certificação internacional por meio da ISO 17025. A empresa garante que a água pode ser consumida com segurança, sem a necessidade de filtros adicionais — desde que a caixa d’água e a tubulação da residência estejam em boas condições de higiene, claro. A manutenção deve ser periódica, no mínimo a cada seis meses. Aos incrédulos: o pH da água distribuída pela Sanepar, graças a essas diretrizes, mantém-se em uma faixa neutra a ligeiramente alcalina, idealmente entre 6,0 e 9,5! Isso mesmo, acima até de muitos produtos engarrafados. Água de tratar doentes em hospitais! Por isso, não jogue dinheiro fora: água da torneira é mais garantida e não fica “viajando” em garrafas e galões, muitas vezes sem a devida higienização.
Não precisa ferver
Uma água assim, de qualidade atestada, dispensa a necessidade de fervura ou filtração extra. A fervura, na verdade, é um processo necessário onde a água não é tratada. Fervê-la é um método eficaz de purificação para consumo humano; não altera significativamente os minerais, mas também não remove contaminantes químicos. O processo apenas elimina microrganismos patogênicos. O caso é que ferver a água, em certos aspectos, dói no bolso, porque gasta gás desnecessariamente; e pior: o uso de gás natural ou GLP contribui para a poluição do ar e emissões de gases de efeito estufa.
Sem encrencas
Não vamos aqui arranjar enguiço com distribuidoras de água; trata-se de um setor comercial que emprega muita gente. Mas é bom saber como o produto é manuseado, qual a fonte de origem e as propriedades do líquido. É importantíssimo especular sobre a higienização dos galões e garrafas, e até mesmo o tipo de plástico em que são fabricados, de maneira que não estejam suscetíveis à contaminação durante o período em que armazenam a água. Uma boa semana de outono a todos! Cheia de água, se depender das previsões. Modera aí São Pedro, não queremos reverter a ordem natural e voltar a ser sapos.
Rogério Romano Bonato escreve com exclusividade para o Almanaque Futuro e meios eletrônicos da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu. A coluna no Bico do Corvo não é uma obra de ficção, mas dentro dos padrões de roteiro do inimaginável. Escrevam: o improvável às vezes acontece!
