O pastor da alma e o bonde desgovernado

Uma imersão nas memórias de Padre Germano Lauck e a influência de sua sabedoria na construção da Foz do Iguaçu que conhecemos.

Escrever e lembrar

Pensei bastante na difícil tarefa de dividir o espaço da coluna com vários assuntos, porque se não fizer assim, as pessoas ficam repetindo a mesma pergunta que faz o radialista Nelso Rodrigues: “cadê o Corvo?”. Juro que tentei, mas ao se tratar de uma figura como Padre Germano Lauck, impossível. Os outros assuntos ficam para amanhã.

 

Padre Germano, saudade que dói

Conheci o Germano Lauck um pouco depois de chegar a Foz do Iguaçu, em 1980. Lembro bem o dia em que recebeu o presente de empresários, um “padremóvel”, um veículo equipado para transportá-lo até as paróquias, mais perto dos fiéis. Por aqueles tempos ele fazia vários tratamentos para aliviar a deficiência causada pelo acidente. Jovem, de muitas inquietudes e ideias borbulhantes, aceitei o conselho de Paulo Mac Donald Ghisi: “Vá conversar com o padre”. Fui e, de certa forma, isso se tornaria uma rotina.

 

O conselho e a diferença

Escolher um conselheiro não é algo simples e nem fácil, sobretudo quando se é – no sentido metafórico – um bonde desgovernado e fora dos trilhos, de tantas ideias entrando e saindo da cabeça ao mesmo tempo. Não fui um jovem fácil de lidar, dizem os mais chegados. Hoje, por exemplo, sou um velho bem pior e sem quem possa me aconselhar adequadamente. Creiam, isso faz parte da natureza de cada um e, por essas e outras, passei o domingo pensando no Padre Germano. Seria um pecado tratar do assunto no foro pessoal, sabendo que o saudoso amigo dispensava a mesma atenção a um vasto rebanho. Psicólogos tratam a mente; Germano ia além, ajustava a alma.

 

Lembranças que permanecem

Eu, francamente, guardo tantas lembranças dos amigos e pessoas de quem verdadeiramente gosto, que seria capaz de escrever um livro para cada um. Fiz isso para o Ermínio Gatti, anotando e colecionando as coisas interessantes que sempre dizia; depois de ler, Paulo Mac disse: “Você não escreveu um livro sobre ele e sim de você”. Bom, a proposta nunca foi fazer uma biografia, isso seria outra coisa. Como coadjuvante e testemunha de várias passagens, não havia como ficar de fora e isso pode ter causado um pecadinho literário: o de conduzir a narrativa na primeira pessoa. Mas devolvi para o amigo e ex-prefeito: “Pode deixar que um dia eu escrevo um só para você” — e ando tratando disso faz um tempo. Curiosamente, é impressionante como Paulo Mac Donald e o Padre Germano se cruzam pelos capítulos, como verdadeiramente se encontraram ao longo da história. Espero concluir essa tarefa um dia.

 

Ouvir é mais importante do que falar

Isso é verdade, como “ler é mais importante que estudar”. Difícil é entenderem a exatidão de um comportamento assim. Duas pessoas falavam alto ao meu compreender – longe disso ser volume –, um era o Germano e o outro o Ennes Mendes da Rocha, gerente da Rádio Cultura, sempre com a água na temperatura ideal para despejar nas encrencas. Sábio, leitor convicto e, mais do que tudo, paciente, Ennes aconselhava com amplitude similar ao Padre e eu pensava: onde ele vai buscar esses ensinamentos? Certa ocasião eu aguardava ser atendido pelo padre e, da sua salinha, saiu o Ennes. Estava tudo explicado, mesmo o radialista sendo um seguidor da doutrina espírita.

 

A salinha

As missas do Padre Germano eram muito concorridas. Os que não chegavam na hora iam se amocar nos últimos bancos. Mas a audiência mesmo acontecia em sua salinha, no edifício ao lado da Catedral São João Batista, um prédio com ares góticos, construído no início do século passado, com paredes grossas e portas altas. Germano ocupava três espaços na casa paroquial: de um lado um aposento para dormir, de outro um quarto com cama fisioterapêutica, e ao centro, uma sala cercada de livros empilhados, móveis assoberbados de papéis, paredes repletas de lembranças, fotos e um mapa de sua terra natal, na Alemanha. Era uma bagunça muitíssimo organizada e, se mexessem em algo ou qualquer coisa saísse do lugar… Era naquele ambiente em que o padre recebia os amigos e dava os conselhos. Um lugar que, em muitos aspectos, se tornou tão sagrado como o altar da igreja. Logo após falecer, em 1º de março de 2009, houve grande discussão sobre o que fazer com seus aposentos e muitos acreditavam que deveriam permanecer intocados, com vidros nos lugares das portas, para que os fiéis pudessem visitar. Por iniciativa de dona Tutti, como conhecemos Hildegard Litzinger, organizou-se a capela no Hospital Municipal, que hoje ostenta o nome de Padre Germano Lauck.

 

O pastor alemão

Eu vivia levando pitos telefônicos do Padre Germano, mas quando era chamado na paróquia já ia imaginando que o bicho iria pegar para valer. Na ocasião em que Bento XVI foi aclamado papa, escrevi que Joseph Aloisius Ratzinger foi um “eficiente pastor alemão”. Germano não gostou em nada do trocadilho e mandou chamar este jornalista. Sabendo do sermão, desobedeci, mas no sábado seguinte fui à missa na tardinha; sentei-me nas fileiras perto da porta de saída. O Padre fazia leitura dos salmos e, ao me ver, de pronto soltou: “Acabou de chegar o Rogério Bonato. Para vir à missa deve ter cometido algum pecado grave”. As pessoas se contorceram para aplaudir o meu constrangimento.

 

Pontual na política

Padre Germano não tolerava o sofrimento pela ineficácia político/administrativa/legislativa e, diante disso, mandava ver no sermão. Quando os governos não cumpriam as promessas, a população ia entregar a situação no confessionário e dá-lhe puxão de orelha direto do altar. Germano não fazia trégua e isso fez mudar o comportamento e também o destino de muitos políticos.

 

Seriedade e humor

Padre Germano foi um homem muito sério, centrado no comportamento humano, com fidelidade extrema ao compromisso religioso e, nem por isso, desprezava o humor. Escreveria várias passagens de fazer rir; muitas cansei de repetir, como os ocorridos para criar a Canja do Galo Inácio, um evento de caridade em pleno Carnaval. Não foram poucas e menos raras as ocasiões em que as pessoas me pediam para apresentar o padre ou levá-las até ele. Certa feita, uma jornalista – me recuso determinantemente a revelar o nome – foi acometida por um surto de choro, misto de insegurança e revolta em decorrência de um fato estridente. A redação tremia. Ela levou dias até superar e a saída foi conduzi-la em uma audiência com o Padre. Depois de atendê-la, ele me chamou: “Olha, essa moça precisa de uma ajuda além dos meus humildes conhecimentos. Fiz o que pude, mas converse com ela e aconselhe a buscar a psicologia, vai ajudar bastante”. Agradeci e, para variar, brinquei: “Devo levá-la a um exorcista?”. “A única pessoa nesta cidade com necessidades assim é você, Rogério”. Rebateu! “Não brinque com essa situação, o caso da jornalista é bem mais simples que o seu”, disse em tom irônico, sem perder a piada. Senti a descompostura e retirei-me com a devida cordialidade.

 

Sabedoria em massa

Germano, ou Hermann Josef Lauck, o nome de batismo que decerto nem ele lembrava, era totalmente desprovido das vaidades e vivia intensamente os seus projetos comunitários, sempre junto aos jovens e às famílias, reforçando o compromisso que deve haver entre os casais. Senti-me perplexo e, ao mesmo tempo — em nada surpreso — ao saber que hoje, 17 anos depois de sua partida, uma legião de fiéis se tornou devota e o agradece cotidianamente, visitando o seu túmulo.

 

As lembranças ecoam

Ao longo deste domingo li muitas mensagens sobre a influência do Padre Germano, mas peço a permissão para reproduzir uma, a que escolhi para sintetizar o pensamento de muitas pessoas:

 

“Hoje a saudade do padre Germano não é apenas memória pública. É saudade pessoal. Profunda. Ele não foi somente um líder religioso da nossa cidade. Foi meu amigo. Meu conselheiro. Meu porto seguro nas horas decisivas. Quantas vezes, diante de escolhas difíceis, eu o procurei. E sempre encontrava nele a mesma postura: escuta atenta, silêncio respeitoso, palavra firme no momento certo. Ele não falava para impressionar. Falava para orientar. E, acima de tudo, para iluminar. Era um homem de bondade rara. As pessoas o buscavam pela gentileza de ouvir. Ele acolhia sem julgar. Consolava sem diminuir. Orientava sem impor. Mas por trás daquela serenidade havia uma fortaleza impressionante. A vida o provou duramente, e ele respondeu com dignidade. A limitação física nunca limitou sua missão. Pelo contrário. Tornou-o ainda maior. Padre Germano me ensinou que liderança se faz com serviço. Que autoridade verdadeira nasce do amor. Que fé não é discurso, é prática diária. Sinto falta das conversas. Sinto falta da segurança que sua presença transmitia. Sinto falta daquele olhar que parecia dizer: siga em frente, faça o que é certo. Hoje, quando passo pelo hospital que leva seu nome, não vejo apenas uma homenagem. Vejo a continuidade de uma vida que sempre defendeu o cuidado, a dignidade e a esperança. Ele permanece vivo nas obras que construiu, nas pessoas que ajudou e nas decisões que me ajudou a tomar. Meu amigo. Meu conselheiro. A saudade é grande. Mas maior ainda é a gratidão”.

Paulo Mac Donald Ghisi

Rogério Romano Bonato foi amigo do Padre Germano, obediente aos ensinamentos e conselhor. A coluna No Bico do Corvo é redigida com exclusividade para o Almanaque Futuro e meios eletrônicos da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu.